A Lavoura

Entre as diabruras e manipulações de ferramentas que nosso tempo habilmente emprega em suas transformações, está primeiro a escassez de água e luz sobre as plantações, entravando brotação e crescimento, embaraçando as apreensões da terra e frustrando frutos que nunca chegarão a ser, e tal é a força desse verbo que nos vimos adoecidos pelo descuido constrito do solo, e, assim agravados, tomamos as sobras do bom esterco para com ele revolver os canteiros de jardim e cavoucar nossos próprios vincos, fundos em semeadura e arrastados em amanho, reunindo pás, ancinhos, foices, charruas, sachos, forquilhas e braços para insinuarmo-nos nas leivas desprezadas e, com mãos ávidas (jamais abençoadas), manipular os segredos de cada semente e transplante, ouvindo os apelos da terra e apaziguando-os quando possível, e, nesse curso, com enlevo descobrimos outros semeadores, carecidos de solo, mas determinados a chafurdar mãos e dedos em esterco e a multiplicar plantas e anseios, de modo tal que, hoje, nos é certo que, entre os segredos da terra, estão primeiro os laços entre palmos sujos, e que, entre os desígnios insondáveis por trás das diabruras e manipulações de ferramentas que nosso tempo habilmente emprega em suas transformações, se esconde uma certeza: nenhuma Lavoura se faz sozinha.