“A proclamadora”, conto de Alessandra Barcelar

Janeiro 13, 2018 0 By André Balbo

ou uma história sobre cactos

 

olhei o chão. meus pés contraídos evitavam o contato com o piso frio. há quanto tempo eu estava sentada ali? aquele sofá confortável era uma espécie de nave que me levava para outros mundos. outras pessoas. outra pessoa, precisamente. ele. fiz um esforço para me lembrar do último pensamento e eu já não conseguia. “mais uma vez”, anotei na memória. tem sido assim ultimamente. eu me distraio e acabo divagando por longos minutos, ou até horas. pensando nele. bufando por ele. começo imaginando encontros, cenas, cenários, diálogos, desfechos, tudo. é sem aviso. eu sei. e você, agora, também passa a saber. quando vejo, já está assim, tudo como a tecer enredos, teias, tessituras. é meio que novelar. crio sonhos. sentidos. contrario fatos. estou contradizendo a vida. “isso não pode continuar assim”, decidi mais uma vez. “preciso barrar essas incursões dele em minha mente”. resoluta, mergulhei em cálculos e estratégias para interromper essas minhas viagens ao encontro de… foi quando ouvi a promessa impossível: “ligarei para você qualquer hora”. e fechou os olhos. “qualquer hora uma ova!” – proclamei.

na mesma hora em que disse aquelas palavras, fui assaltada por uma ira repentina e deveras desmedida. não. não era normal. eu jamais havia sentido algo parecido. todos me conhecem aqui no bairro por eu sempre ter sido e agido tal qual uma pessoa serena, pacífica, pacificadora. uma mulher calma… nem nunca apresentei chiliques ou achaques de naturezas insólitas e que porventura atordoassem os derredores. “cabrunco”, soltei essa. parei de pensar. fui ser. o dia estava claro e eu precisava esquecer aquela trespassada loucura instantânea para dar seguimento aos meus afazeres. sou professora. professora de história. é a minha travessia cotidiana. também gosto de literatura, porém. sinto um prazer louco quando leio escritores de ficção latino-americanos. não sei explicar, mas sinto. história e literatura têm muita coisa em comum. eu acho. as duas trabalham com linguagens elaboradas, cruzamento de informações, sufocamentos e disfarces, além de dimensões variadas de realidade. mas a hora aperta. vez-e-hora de ir. de imprimir passos.

calo a boca. penso, apenas. não penso. vou caminhando para o trabalho. paro na esquina. sinal verde para mim. atravesso a rua num monólogo particular. “aquele imbecil, ele terá o que merece!” – disse para ninguém ouvir. sem tripudiar da situação, dei-me a chance de seguir tergiversando em um silêncio austero. “essas penumbras que atravancam a minha vida, hei de dar um basta nelas duma só vez!” – balbuciei. caminhei. cidade ligada logo pela manhã. 220 volts. tudo muito frenético. até o coração. meu coração. “que coisa!” – grunhi. ao menos para isso aquele débil serve, para fazer eu me sentir vivíssima da silva. a verdade é que ele jamais ligaria, assim sem mais nem menos. aquele sujeito… tão desprezível, tão desprovido de alma, por quem me entreguei como uma ordinária fêmea no cio e prestes a cair num desfiladeiro.

entro na rua da escola. tudo aqui é muito próximo. isso porque moro num local estratégico para mim. cheguei. muitos alunos me esperam. outros, nem tanto. é pauleira. “bom dia, bom dia, bom dia”. estou na sala dos professores. tomo aquele pequeno para esquentar as baterias. é pauleira. o sistema, sabe. o sistema é o pior de tudo. mas não reclamo. ou melhor, reclamo. e muito. é a minha vida. minha história em jogo. dou o meu máximo. reclamo muito, mas a voz da gente é nada. gosto. gosto daqui. aqui é onde consigo esquecer de tudo aquilo que me aflige. é pauleira. meio dia e já estou pedindo arrego. mas todo dia dou uma de forte. brincadeira, sou forte. forte o bastante. forte o suficiente. mas aí a sirene toca. todo mundo desce a rua. eu vou junto. passos compromissados com o descanso. “hoje não vou pensar naquele traste”, brami internamente. mas já estou pensando.

era um enfrentamento cotidiano aquilo. uma batalha entre o que foi e o que é, e entre o que está sendo e o que será. eu não sei quem disse essa frase, mas é bem assim… “todo mundo é malandro de um, e todo mundo é o otário do outro”. sou a otária dele e ele o malandro de mim. pelo menos é o que parece. santa ingenuidade. já estou chegando em casa. antes, costumo passar naquela delicatessen. “tantos anos a fio”, ainda a regurgitar vozes diáfanas oriundas daquele monstro. a verdade é que não éramos mais os mesmos desde que ele saiu da casa da mãe, a quem nutro um imenso carinho. ficou todo cheio de si. ficou todo diagonal, cheio de pontas.

o ser humano é um bicho de encorajamentos. ali, na delicatessen, renata esperou o café expresso que havia pedido ao balconista. os malandros, pensou, também sabem esperar. a noite repassa a cheque frio os contrabandos do dia, as aflições e as desventuras. estava cansada de choramingar. chegaria em casa e dormiria um sono tranquilo. nem contaria carneirinhos. não haveria necessidade de tapa-olhos. tão cheia de histórias para contar, dentro de sua mente que tanto professava, resolveu refazer o seu futuro. o futuro, sabia ela, era um passado com novas roupas de presente. e o seu, o seu futuro, possuía um sedução altiva, ornamentada na esperança das revelações. lembrar-se-ia então de Cortázar dizendo “todo bom conto sempre terá um bom tema”. Renata engoliria o café quente com uma bolacha doce e ao mesmo tempo ressignificaria o trato das coisas. passaria, ao invés de se avaliar como um ser-no-mundo, com sua essência determinada por fatores mundanos, a se avaliar a partir de sua subjetividade. e apenas. faria, dali a duas semanas, uma viagem. marcaria um encontro com a morte.

era um conto micro, no máximo, a história de amor dos dois. nunca passou de alguns encontros muito desencontrados em constantes reencontros para novos desafios de voar. de tentar ser. de viver o ser. de. nos primeiros dias eram leves e afoitos, atrevidamente livres. insurgentes. mais pela própria insurgência do que pelo que quer que fosse que sentiam um pelo outro. e não sentiam a mesma coisa. nem de longe. para cada um a experiência tinha cor, sabor, valor e significado distintos. tudo era vivido em dimensões tão distintas e distantes quanto o inverno e o verão. ele vivia o momento, ela vivia ele. ela vivia insistindo em dizer que cada um tem a sua história. cada um lida com a sua história de seu jeito.

e sobre aquela tua eterna pergunta, “porque você insiste tanto em…”, nós dois sabemos que você sabe a resposta tanto quanto eu. tudo tem menos a ver com nós dois do que com toda a minha história, minhas experiências traumáticas e com tudo o mais. então, apenas ignore as farpas, as agressões verbais sem sentido, as provocações e afins. atribua tudo a isso. àquela teia tão extensa e confusa quanto a minha complexidade. quanto filtrar tudo, você sabe o que ficará. aquilo que sabemos bem. ou sabemos nada. por isso mesmo, nosso. só mistério. acima do bem e do mal. poesia. história. e quanto aos arranhões, é a minha natureza, em suma. sou cacto. tu sabes.

e aqui é onde começa o meu discurso quando o encontrei após a viagem que havia eu feito. não sou cacto de nascença, mas de transmutação, de assimilação de. e tu já viste cacto espalhar doçura por aí? cacto é solidão, é agressivo, é áspero. cacto é um insulto ambulante. sem carisma e sem delicadeza. não é enfeite para olhos entediados, nem é chamariz de afabilidades. cacto é resistência em ação contínua. ele só tem uma missão; sobreviver. impor-se sobre tudo, sobre todos. e para isso, não importa o quanto tenha de se afastar das flores (ele geralmente nasce longe delas. num lugar tão inóspito que nenhuma delas duraria um dia sequer). ser cacto é destino e herança. porque ele sabe (em sua natureza solitária, defensiva e beligerante) que não será escolhido para embelezar o jardim de ninguém. ele sabe que será, a priori, rejeitado por sua falta de beleza e atrativos, ou por sua reputação de antissocial (o que é um equívoco, ele apenas defende-se). o cacto é um guerreiro solitário, em suma. ele sabe que quando o procuram, quase sempre é por algum motivo egoísta. quando o assediam é porque querem eliminá-lo ou usá-lo para alimentar o gado (alimentar o gado, entenda bem. o gado!). então, não é à toa que ele desenvolve espinhos e os usa, quando preciso, para defender-se das mãos perversas que o perseguem. cacto não é flor que se cheire. cacto é flor (e o cheira apenas quem ele queira e deixe e só alguém capaz de sentir o seu cheiro. raros seres entendedores de cactos). os outros, os “normais”, não entendem porque existem cactos e nem a função deles no mundo. eles não compreendem, coitados, que o valor do cacto está nele mesmo, em sua alta capacidade de ser cacto, de ser forte, de ser. a sua função está no símbolo de resistência, de sobrevivência, apesar de tudo e de todos. apesar de seu deserto particular, de sua aparência assustadora, de sua aspereza defensiva, de sua ausência de graça (a sua única graça é ser mesmo ele), tem o seu brilho. ele é um ser único. o cacto é, antes de tudo, cacto. e não precisa ser nada além disso. ouviu bem?

estou aqui com você. você é um bicho. tu sabes, não é? você é um bicho que me machucou e hoje sou uma ferida e um barulho. nunca foi tão difícil ficar longe de você. eu sou outro bicho. escute: “pessoas feridas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. é daquele filme…, que não assistimos juntos. mas estou construindo algo aqui, uma nova pessoa que ficará melhor perto de você. perto de você preciso de uma foice. vou estudar algumas coisas aqui. o que quero saber? aprender coisas que me deixem mais parecida com você. monotonia. para te entender melhor. tudo extraviado, até o amor.

escrevo frações de um todo incompreensível que sou eu. eu amando você sou um pequeno e imprevisível desastre. um desastre que ainda pode crescer, se você colocar lenha nessa fogueira insensata. mas suponho que não tenha muita lenha disponível e isso é uma providencial contenção de um incêndio de indeterminada proporção. não a alimente. eu peço sinceramente. deixe esfriar e morrer em relativa paz. é só agir como sempre… normal. deixe antes que eu reencontre a apatia de alma que toda vida medíocre merece. nadar contra a correnteza ainda significa loucura e fracasso nesse mundo de cópias humanas em escala infinita. torça para eu encontrar a tranquilidade do viver estável e tradicional. talvez até encontrar alguém que me ponha no chão de giz. no calendário regular de obrigações várias e concretas. alguém que esteja, que seja, que veja, que diga. mesmo que não saiba de mim um décimo do que você sabe… mas que aperte a minha mão quando eu tiver pesadelos… e me conte do dia que ficou para trás. isso deve ser importante, já que você tem isso e mantém acima de tudo… alguém que se instale… aqui comigo… no lugar que é teu por fato e escolha do sadismo do universo. não nossa. nunca minha. fique feliz por, enfim, eu ter encontrado um pouco de amor próprio. existirá alguém para quem eu seja a pessoa? a primeira opção e não apenas mais uma pessoa entre tantas árvores? se sim, quero descobrir. e só posso fazer isso se… não é falta de amor, é presença de amor demais e necessidade de vida real. e não acredito em tua decisão de… você tem a intenção, mas não os meios de cumprir o que diz. não negue para si. teria muito a perder e pouco a ganhar. o que diz que faria é algo que só se deve fazer quando não se pode viver sem. não é o seu caso. é o meu. nunca vou te dizer adeus. e nunca acredite numa despedida minha. eu posso estar em tua porta no minuto seguinte. eu imagino o sonho com muito empenho e pouca clareza, mas a realidade o torna capenga. não impossível. fraturado de falsas esperanças. ferido de inconsistências. destruído ainda no útero do tempo, pela falta de verdade e de cálculo. pela falta de combustível e de convicção. atrás da porta te espero o dia inteiro.

a cidade é nova e o clima é gostoso. ideal para fazer amor. ideal para fazer planos e para fazer nada. o tempo não passa, amor. e já faz dez minutos que você mandou a mensagem dizendo que viria. você é tão raro aqui, amor. um relâmpago, um eclipse, o amor em carne. pus a minha melhor roupa íntima: nenhuma. a casa está cheirando a eucalipto e a flores mortas. não gosto de flores vivas. você sabe. troquei a roupa de cama, mas nós dois sabemos que não serão usadas. você está trazendo um livro, com certeza. provavelmente aquele que te pedi há um século. você sempre adiando os meus desejos. você sempre me deixando para depois, para nunca. você sempre… mas sei que está trazendo dessa vez. você traz livros, uma cara séria e um desejo indefinido. nunca sei o que traz atrás desse desejo. nunca sei o que traz atrás desse rosto bonito e fechado como um bunker. nunca sei você atrás de você. sei apenas que sou como Clio, a que proclama. e minha história, apesar de nossa, é bastante minha. só sei você dentro de mim. o você que amo e que não sabemos até onde ele existe. você já está perto, amor? você está meu? eu fiz compras hoje. e eu que não cozinho, fiz comida pra você. fiz comida e um refúgio pra você dentro de mim. eu fiz um plano para você. fiz um mundo pra você e fiz uma mulher pra você, amor. eu fiz a vida em você e fiz você em mim. você e a vida são a mesma coisa aqui, amor. você já está chegando? abro a porta em agonia de espera.

atrás da porta: vazio. e mais tempo.

eu te amo é uma consideração filosófica. farei outras coisas, depois saberás. ando sem destino. estou sem destino na vida. você me ajuda. você me ajuda? por enquanto, fico aqui, o mais perto que posso suportar. quero uma carona para algum lugar. qualquer dia escreva-me qualquer coisa. pela esquerda? pela direita? escreva para mim. onde fica o fim do destino que não se tem? sim? alguém em você pode me? por favor. por ali. não. talvez. sempre achei que aquele poema que escreveu sobre mim era extremamente triste, deprimente. você é mesmo ridículo. caminhar não significa estar indo. gostaria de ser menos mórbida em tuas letras, na história. eu não vejo um azul. faz tempo. se puder. agora? mas não precisa mudar nada. eu não sei. e suponho que se fizesses, ela acabaria igual à outra. o que me resta? igualmente deprimente. a força nas pernas, nos braços. mas seria diferente. a poesia. uma tristeza mais viva. outra danação.

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Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Colaborou para revistas como Amálgama, Subversa, Gueto e Benfazeja. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Contadores de histórias na Rede Social Senac.