“Alguma coisa”, conto de Mari Carrara

“Alguma coisa”, conto de Mari Carrara

Março 7, 2019 0 By revistalavoura

E então não, nós não tivemos um filho e estamos aos quarenta e oito num avião mais uma vez em férias, algum país que já conhecemos porque são muitos anos e muitas férias, a liberdade. Não tivemos um filho e estamos aos setenta e oito no novo apartamento, viemos morar na praia, há um telefone supersônico estrambólico impressionante, ele faz milagres, é como se nossos amigos estivessem todos ali ao mesmo tempo na tela, não precisa dos nossos dedos duros, mas nós não sabemos mexer muito bem, nem eles. Estamos fazendo juntos um bolo de fubá com goiabada, pensando que talvez não tenha sido uma boa ideia mudarmos para cá, ninguém vem visitar, nossos amigos estão ocupados com os netos, e com os amigos que também têm netos, botam as crianças todas juntas cada tarde na sala de alguém, ouvem música, abrem alguma bebida. Eu estou com um vestido de praia muito leve e o meu cabelo duro desse sal que fica o tempo todo no ar, faço um sorriso carinhoso pra você, cuido desse sorriso, sem esgar excessivamente as pontas, boto um brilho no olho, falta alguma coisa dentro desse sorriso e a culpa é sua, eu não digo.

Ou você foi embora e eu tive um filho, aquele que você não queria, você foi embora para eu ter um filho, o pai é mais ou menos legal, estamos aos trinta e nove ele e eu, e a criança que diz coisas impressionantes, faz milagres, nessa idade acho que eu não era capaz de nada disso, ainda não saiu das fraldas mas abre o meu computador e digita um poema. Eu e o homem que é o pai dela nos damos muito bem, ele é mais ou menos legal, mais ou menos bonito, mais ou menos interessante, um tanto divertido, muito bom pai, ele gosta quando você vem para o almoço de domingo trazer esse nosso cachorro que ainda é meu e seu, ele gosta porque você fala da última viagem que você fez sozinho, com a sua mãe ou com mais uma namorada nova, e ele gosta do cachorro e também das suas viagens porque enquanto você fala ele vai ficando cansado, você diz paraíso e ele pensa areia molhada cortando o pé no chinelo e você diz avião ele pensa na dor nas costas e você diz hotel e ele pensa em ar-condicionado quebrado, check-in, e vai ficando muito confortável ser ele, a nossa filha no colo dele olhando você falar, querendo puxar os seus cabelos ou os seus óculos, cabelo e óculos os dois cada vez maiores. Hoje é um desses domingos e você revê os nossos amigos, quase todos têm uma criança na mão, muitas idades diferentes, uma sinfonia, música um pouco alta por cima das vozes, alguns vão lá e aumentam o som, outros vão lá e abaixam, você tenta falar com os adultos, falta alguma coisa, você se agacha para falar com as crianças, falta tudo.

E então você foi embora e depois voltou, estamos aos trinta e sete sentados neste bar que amamos cada vez menos, você foi embora para que eu fosse atrás desse filho que ainda não existe e que eu amo cada vez menos, você correu com as suas malas, todo o drama, correu convicto bateu com a cabeça na parede opaca do seu futuro e quicou depressa de volta para esta mesa, as malas ao lado, o garçom reage à nossa cara aparvalhada, Precisam de alguma coisa?, você aceita finalmente o filho, eu ergo a taça num brinde estúpido, peço a conta, temos cinquenta e seis anos, não sei se nos amamos cada vez menos, nosso filho na faculdade, ele aprende coisas impressionantes, um milagre, é noite e o filho num balcão qualquer ergue o copo num brinde estúpido, falta alguma coisa.

 

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Mariana Salomão Carrara (São Paulo, 1986) publicou o livro de contos Delicada uma de nós (Off Flip, 2014) e os romances Idílico; e Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017). É autora do romance Se deus me chamar não vou, a ser lançado pelo Prêmio Casa Paratodxs (Edith e Editora Nós). Recebeu os prêmios Off Flip, SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol e Josué Guimarães, e foi finalista e menção honrosa no Prêmio Nascente USP – 2009. É finalista do Prêmio Guiões de roteiros em língua portuguesa com o longa É lá que eu quero morar. Foi aluna do CLIPE Casa das Rosas 2018 (prosa). É Defensora Pública desde 2011.