“Boiboleta”, conto de Carolina Quintella

“Boiboleta”, conto de Carolina Quintella

janeiro 17, 2019 0 By revistalavoura

MAS SENHOR DE RURAL NÃO ERA SENHOR SE NÃO TIVESSE GADO, muito gado.  Disseram que minoria de cabeça eram os que pastavam; bons mesmo eram os de serviço, porque, nessas rurais, raro era o lucro com venda de cabeça; o lucro mesmo era outro.

E os tais bois eram brutos que só, carregavam na lombada tudo que era peso, aguentavam no sol muitas horas. Há de se aguentar. Por isso é que era bom ter tantos destes: mais e melhor serviam, se arredar logo amacia, com pouca custa pra domar.

Mas eram iguais uma coisa, tinham carne parruda e muito dura, de jeito que, se duvidar, até a escora sentia a dor do tranco. E coisa dura demais não se mastiga e não digere. Já que toda constatação que se faça antes deve de ter tido uma tentativa, pois digo que teve mesmo e isso é de se lamentar.

E sabe o que tem graça? É que tinha mais boi do que gente e, mesmo assim, era caso de domar, pastorear e vaquejar. Eu que não havia de acreditar se não fosse verdade: eram muitos; vinham de leva, ou se pariam aos poucos ali dentro. Morresse um, não fazia tanta falta.

Mas a preocupação era tamanha com a manutenção das cabeças que se um ficava muito doente, pra evitar o alastrar, era morto e enterrado. Bem que sempre me disseram que boi ajuda a fertilizar o solo, só não sabia eu que isso também era forma.

E o ruim é que boi sente, isso se via, me disseram: era tudo cria um do outro; boi sentia. Os senhores nunca estavam cara a cara pra ver. Mal sabiam qual que era o seu tamanho, ou o nome que ganhava – se é que algum tinha – só se sabia de números.

Mas, também, diferença é que não fazia de dar nome aos bois. Eles nunca que iam chamar boi por nome. Ouve: boi é boi pra eles. Era coisa muito rara aproximar. Ninguém tinha apego por boi, só outro boi.

E é por isso que, na hora de juntar pra arreglar tarefa, as coisas quase sempre se saiam de jeito desigual, já que media por esforço ou aparência quem é que aguentava mais. E nem sempre aguentava…nem sempre.

Mas era assim que se media mesmo; boi era o trabalho e o trabalho era o boi. Ainda que não aguentasse, a escolha era o que tinha de ser. E como haveria de não ser? Não dava de acordo e nem tinha como, porque boi era tudo mudo, ainda que tivesse voz. E isso tudo sem saber já se sabia.

E no desenrolo se diz que certa vez, numa noite mal dormida, os bois se deram conta de si, seguiram um fio de ideia, não se sabe donde nascida, e puff. Não era de se imaginar que, por encanto ou macabreza, isso, uma vez nunca antes havida, podia de acontecer.

Mas, assim, foi dito que um senhor, uma vez, em reunião, disse coisa que todo mundo já sabe e você também deve de saber:  boi mutante, muito a muito se descurva. E foi exatamente assim que disseram e que se fez: os bois, de se levantar e andar igual fosse gente, exibindo seu tamanhão, deixaram os senhores desbaratados e no prejuízo: do dia pra a noite não tinham mais boi, nem em singular.

E, de preocupação, resolveram que já que boi não é mais trabalho e trabalho não é mais boi, tinha de ter forma de fazer o lucro continuar. É assim: se ex-boi não trabalhar, nada é que não há de ser: nem boi nem gente nem nada.

Mas então foi aí é que se resolveu que os ex-boi tem de em algo servir, igual dívida criada. Manutenção. Me explico? Só que boi mutante é de picos em escala de passos largos: outro tiploff, duro, e já não temem fala nem gesto, nem nenhuma manifestação. Em pátum, de firmeza, bezerro pegou em caneta.

E quem me contou? Ah…se sabe! Em alguma coisa não cri, em outra interpretei. Mas se assossegue não, que é de afirmar que no fim do conto o boi inda há de mutar em boiboleta, ah… isto é! Todo mundo de assim acredita, menos o senhor.

 

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Carolina Quintella (Rio de Janeiro, 1996). Sempre manifestou interesse pela leitura, mas é quando licencianda em letras português-espanhol, pela UFRJ, que o macrocosmo literário se lhe descortina, revelando-lhe, entre tantos escritores, ela própria. Hoje, hispanista, professora, feminista e artivista, escreve.