“Calvo Balbino”, de Rui Condeixa Xavier

05/02/2018 / postado por André Balbo

Calvo Balbino, bêbado imprestável, mendigo por vocação e vício, detestava gente torta, manca e aleijada. Não podia ver cego, mutilado ou paralítico: atacava com torções nas orelhas e chutes nos rins; nomes, xingos, impropérios. Sobrevivente de mil desgraças, não concebia que alguém se deixasse ficar sem braço, sem vista ou ouvido, falando torto ou andando esquisito. Calvo Balbino era muito ereto, e o queixo apontava para cima, não importa o grau da bebedeira, aliás eterna. Tinha para si que toda gente deficiente estava de mentira ou frescurada. Tinha razões: toda vez que via alguém largado numa cadeira de rodas, conduzido por uma pobre mula humana a quem a vida impusera esse fardo, e arrancava a criatura dali, e a jogava no chão para que criasse vergonha, a pessoa sempre se levantava em seguida, tentando desviar dos seus chutes, e andava na mesma hora. Acaso lhe passasse na frente um desses, que andam brandindo bengalas nas canelas dos outros (numa teimosa recusa em usar o sentido humano mais básico), e lhe desse um merecido tapa na cara, o sujeito invariavelmente lhe devolvia um olhar arregalado, frequentemente seguido de um grito; o grito de espanto de um sem vergonha (Calvo Balbino pensava) apanhado na sua mentira.

Queria parar com esses rompantes – nos momentos de cansaço, quando se via outra vez com os pés na estrada. É que a sociedade que o cercava, hostil em todos os aspectos, ainda por cima parecia ter um especial senso de proteção aos aleijados, e Calvo era perseguido. Iam até ele pessoas chorando, torcendo os dedos, jogavam-se diante dele para obstruir seu caminho, falavam coisas confusas de que Calvo, desatinado, só pescava sílabas soltas. Às vezes achava reconhecer nos rostos alguém a quem tivesse exposto, o fulano ou a beltrana choramingavam, mas Calvo não era de ouvir lamúria de gente lisa, mandava à merda e seguia, sem dar assunto. Depois que não tinha certeza se reconhecia ou não alguém, o surdo que estapeara na orelha porque achava ridículo seu abanar das mãos, ou o coxo que arrancara da cadeira em frente a uma quitanda. Não se importava, entretanto, desde que o sujeito tivesse parado de fingir que não ouvia, desde que já tivesse providenciado um braço e uma perna para andar por aí como gente, não despertava sua ira. Vivia percorrendo os interiores, palmilhando estradas, sempre expulso por seu vício intolerante. Tinha que viver assim. Sua experiência em uma cidade grande fora de tudo traumática: por todo lado havia toda sorte de manco, caolho, coxo, abilolado, paralíticos de todos os graus, os tortos, os ponto e vírgula, os tronchos. Balbino não se conteve, e desceu o sarrafo em quantos achou. Por isso não lhe deixaram em paz; multidões vieram atrás dele, agarrando sua barba, puxando o casaco imundo por cuja propriedade já vertera sangue próprio e alheio, falando ao mesmo tempo um blablabla uníssono, que Calvo Balbino, no seu mundo corroído até o monossílabo pelo álcool e pela fumaça com gosto de plástico, não dava conta de entender. Vieram pessoas carregando grandes câmeras, pilotando vans com aparatos alienígenas, pessoas com gravadores em punho, e sobretudo vieram legiões de desgraçados, pulando encarapitados nas muletas, tremelicando sobre rodas, com as mãos estendidas e as caras medonhas. Certamente para vingar os seus iguais, ele pensava. Nesse dia, em que vieram as câmeras e as vans, quando a multidão de tornou densa, inescapável, enchendo a rua inteira, deslocando os cracômanos e bloqueando os carrinheiros, tudo culminou no ponto em que alguém o envolveu com um abraço de polvo, tentando conduzir Calvo sabe-se lá para onde, e nessa hora ele deu um basta e abriu espaço na multidão como um martelo, deixando um rastro de narizes partidos.

Desde esse incidente ele seguiu em cidadezinhas, se fez idiota de estrada, dormindo em pastos e pedindo nas ruas, escapando como pôde à intolerância da polícia. Mas não havia lugar em que não houvesse pelo menos um aleijado, ou mesmo uma velha preguiçosa agarrada a um andador, e Calvo Balbino, cedo ou tarde, cometia um de seus episódios e tinha depois que mudar de cidade, porque logo se via acossado, juntando gente onde parava – mas nunca mais aquelas apavorantes multidões. Sentia-se, entretanto, um homem perseguido. Que outro mendigo era tão encarado, interrompido na rua, sussurrado por onde passava? Tinha raiva das pessoas e medo das sombras.

Um dia as sombras o apanharam. Parou um carro à noite ao seu lado, e de dentro dele três ou quatro pares de braços saíram e a porta do carro o engoliu. Esperneou, mordeu, arranhou caras, mas foi nocauteado. Acordou num quarto com cama, armário e toucador, lençóis limpos, travesseiro, um bolo e um jarro d’água. Mas era uma gaiola, na verdade, porque as janelas estavam fortemente vedadas por tábuas grossas e com muitos pregos. Comeu o bolo, pôs água no copo, jogou o resto no tapete, e encheu o jarro com mijo escuro e malcheiroso. Viu que ainda tinha o isqueiro, e pensou em botar fogo no colchão para que fossem obrigados a soltá-lo, mas teve medo de morrer queimado. Quando já estava no limite da sua paciência, a porta se abriu, e alguém empurrou para dentro um cadeirante.

Era um garoto. Menos jovem do que parecia, adolescente, mas a quem a deficiência dava aparência infantil e um olhar de animalesca incompreensão. Seus braços, muito fininhos, retorciam-se como galhos em direção ao corpo, os dedos eram enrolados na direção errada, e as pernas estavam ausentes; vestígios de dedos saíam do lugar onde deviam estar os joelhos. O menino estava assustado, era evidente que não queria estar ali. Seu corpo quase sem recursos tentava se voltar na direção da porta, que se fechara atrás dele em um segundo, e sua voz incapaz de fala esboçava gemidos de socorro. Cativo e puto, Calvo não sentiu pena. Viu no menino um representante, não apenas do seu sequestro, mas de toda a espécie de gente que a vida inteira o perseguira e fizera ser perseguido, esse tipo de gente que obseda tudo e todos, que pede que lhes carreguem e acompanhem, que exigem cuidados eternos, quando Calvo nunca nem mãe tivera; nascido da chocadeira direto para o instituto, vivo somente pela afirmação de uma vontade intransigente e grossa. Partiu para cima do menino com a fúria de um justo. Deu logo um tapa na cara que o fez voar para longe da cadeira, seguido de um chute no estômago. O pivete encontrou, rápido, o lugar certo da língua em sua boca, como Calvo previa, porque já no terceiro chute recuperara a faculdade da fala, e pedia que parasse. Mas Calvo não tinha intenção de parar. Não era um animal para ser preso. Chutava, agarrava pelas orelhas, arrastava pelos cabelos. Usou toda sua força, sem controle, e o menino reagiu como o previsto; como sempre reagiu esse tipo de gente sob a sanha justiceira de Balbino; quanto mais fortes os chutes, quanto mais certas as lapadas, mais rápido cresciam as pernas nos cotocos, mais rápido se desenrolavam os membros tortos e engrossavam as partes raquíticas.

O menino agora corria pelo quarto exíguo, tentando desviar das lapadas. Já tinha até as coxas gordinhas, firmes, e conseguiu driblar um ou dois ataques com espantosa habilidade, mas a fúria do oponente era muita. Calvo virou a cama de madeira por sobre o menino: errou o alvo, mas com o móvel atravessado no quartinho era impossível continuar fugindo. O menino se precipitou para a porta, bateu, pediu socorro, seus dedos, agora firmes e certos, mexerem em vão a maçaneta trancada. A porta, de fato, se abriu, e vieram pessoas lhe ajudar, mas foi em vão, porque Calvo Balbino já tinha dado com o grosso vidro do jarro em sua cabeça, espalhando uma nuvem de mijo, e agora dava socos muito decididos no corpo inerte. Três homens vieram agarrá-lo, e o levaram para fora dali. Uma senhora chorava no corredor. Um quarto homem, que ficara pra trás, examinava, agachado, os membros do menino morto, tendo no rosto uma expressão indecifrável.

 

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Rui Xavier é artista das letras e do teatro, compositor e cantor à frente do grupo Anhangabahy. Como escritor, é autor de poesia, conto, dramaturgia e romance, tendo estreado com o livro de contos “Metamorfoses Privadas (2012, Nversos). Também é ator, e diretor teatral. Escreveu e atuou no espetáculo “Ensaio Sobre a Liberdade”, e dirigiu a encenação de “Os Assassinos de Inês de Castro”, em 2005.

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