“Considerações sobre a higiene íntima”, poema de Natasha Felix

18/01/2018 / postado por Arthur Lungov

1

olhei o tapete do banheiro sem medo,

(dessa vez) todo um ecossistema lá.

quem acreditaria?

ácaros mofo manchas de vinho lembra

meus joelhos nele os

cotovelos no vaso sanitário sua

língua entre

as bandas da minha bunda a gente

ria feito duas cabras era

primavera ou algo assim

você atrasado pra uma festa ou algo assim

o azulejo português ou algo assim

 

quem acreditaria o fim do mundo

ali vivendo entre animaizinhos

minúsculos lembretes pegadas

impossíveis a olho nu lá

bem ali.

 

2

saio do chuveiro cada vez mais suja

encarando a mosca no box por tempo suficiente.

(penso que esquecer é fácil então esqueço)

 

3

o banheiro não é uma casca não é um par de

asas fininhas o banheiro

é uma estrutura fixa

com coisas viscosas dentro.

onde você deveria se sentir seguro

como na sua cabeça

onde você deveria se sentir seguro

com sabonetes artesanais e toalhas e ducha quente.

 

4

nunca conheci quem tivesse cabeça limpa

aliás

os poucos que conheci e talvez tivessem cabeça limpa

prestavam menos do que se supunha.

sempre preferi aqueles cheios de bichos

(escândalos de orelha a orelha)

 

gosto principalmente da maneira como

voltam farejam roem somem,

 

teimando em dizer sim

à loucura e ao amor e roem roem

voltam somem

dizem sim ao pregador no mamilo ao suor eles farejam

a imundície voltam ao amor

ao amor voltam com certeza.

 

aqueles que fazem da infidelidade

o teste final e necessário

antes de romper a ordem dos dias

leves levíssimos.

 

quem quebra copos quem sabe o erro

toma para si o erro

segura escova gargareja

não cospe não engole segura firme

o erro testemunha perfeita do crime perfeito

entre os dedos e a espuma quem

sabe o erro assim me inspira muita confiança mesmo.

 

reconhecer quem não tem a cabeça limpa

alimentá-los, ser boa para eles.

 

__

Natasha Felix (1996-) é escritora, nascida em Santos, Sp. Mora em São Paulo. Tem textos publicados em revistas e jornais virtuais e físicos. Produziu os zines ‘anemonímia’ (2016) e ‘j. não é um nome’ (2017, selo manga).

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