Contos e fotografias de Alê Motta

Janeiro 11, 2018 1 By Lucas Verzola

Nada a fazer

 

Sou um homem com dores na coluna, olheiras e cansaço. Meu trabalho é infernal. Sustento uma esposa tagarela, um pai inválido, 5 filhos insolentes.
Finalmente consegui dar entrada num apartamento. Meu sonho há anos.
Comemoramos com pizza barata. E guaraná.
Mudamos para o condomínio de nome Recanto Feliz. Sou o único empolgado. Meu pai reclama do bairro, meus filhos dos vizinhos. Minha esposa do acabamento da obra.
Eu devia ter feito algo. Agora só posso esperar. A escuridão aumenta e me apavora.
Esmagado pelo concreto tenho de admitir que as rachaduras eram perigosas.

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Bala perdida

 

Quando eu estava na quarta série fui baleado. Nas costas. No quintal de casa. Uma bala que eu não fazia ideia de onde vinha. Cirurgias, medicações, muita dor. Risco de morte. Fiquei internado muito tempo.
Meu pai praticamente morava no hospital. Abandonou o emprego para cuidar de mim.
Um dia acordei com minha mãe chorando ao meu lado. Meu pai não estava no quarto. Tinha sido preso.
Encontrei meu pai muitos anos depois. Vendendo carregador de celular num sinal de trânsito. Ele fingiu não me reconhecer.
Vergonha? Culpa?
Deve ser difícil. Ser alcoólatra e atirar no próprio filho.

 

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Alê Motta é arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada por Adriana Lisboa. Interrompidos (Reformatório, 2017) é seu livro de estreia.