De todos os fogos: o fogo

novembro 14, 2018 0 By revistalavoura

Duas histórias narradas simultaneamente, intercalando-se e confundindo-se no espaço e no tempo. O foco da primeira é em uma arena, descrita como numa Roma clássica, em que lutam dois gladiadores; a segunda concentra-se em um familiar microcosmo contemporâneo, em que dois amantes rompem o vínculo pelo telefone. Ao final, ambas se encerram com um incêndio provocado por uma combustão bidimensional, impondo a nós, leitores, a cabal aceitação de uma multiplicidade de tempos.

Em “Todos os fogos o fogo”, conto do livro homônimo de Julio Cortázar, a correspondência entre as duas narrativas, ao arrepio do que pode supor um leitor moroso, não se desenha tão somente pela repetição de um incêndio. Do mesmo modo, ingenuidade seria acreditar que a única relação entre a destruição do Museu Nacional, em setembro deste ano, e o serial de incêndios em espaços de preservação cultural nos últimos anos – talvez sendo o mais emblemático desse acervo de destruição aquele que tomou o Museu da Língua Portuguesa, em 2015 – seria a repetição das chamas.

A sensação imediata (e talvez unânime), entre os pensadores e profissionais da arte e da cultura, foi a de que nada aprendemos com nossos erros do passado – algo tão clichê quanto macondiano. Ou melhor: nada aprendemos com o fim de qualquer realização. Mas assimilamos bastante, do ponto de vista psicossocial. Assimilamos que a sorte já está lançada, como uma sucessão de forças e pulsões inatacáveis, um fadário cruel e monótono tanto quanto o final cruento de um gládio.

Essa obscena sabedoria, materializada na correspondência entre fatos incendiários, transcende a substância de Heráclito e se desenha na fronteira da identidade dos papéis que os personagens envolvidos desempenham. Como no conto de Cortázar, entre os desenlaces, o que se verifica é a previsibilidade das ações humanas, pois é como se intuíssemos o que vem depois, porque até o inesperado acaba se transformando em hábito quando se aprendeu (a aceitar). Como estirpes condenadas à inércia, desinsolitizamos as tragédias, tornando-as quadros reprisados, dignos de notas no Facebook – tão mais aclamadas quando instantâneas – irresistentes ao próximo meme político-eleitoral.

Há sadismo no modo como deixamos se consumirem, entre pirraças e bizantinices, os conflitos atinentes ao nosso patrimônio histórico e cultural. A imagem do fogo devastador não acende em nós qualquer utopia de redenção. Retraídos em nossa própria desfaçatez, lutamos pela xepa da feira e assistimos (e assim outra vez) à destruição de nossa memória. Testemunhamos em sigilo a mutação arbitrária do nosso passado, permitindo que o gladiador irascível que lancina e golpeia se dilua num combatente de orgânicos “movimentos”. É nessa passividade que os frouxos têm moradia.

Mas o artista e o pensador da arte têm que deixar esse regaço. Devem mirar-se no exemplo de Xerazade e sua contenda contra a tirania pelo resgate da memória: colecionando restos, cacos de histórias perdidas, inventariando-as e permitindo a reconstrução do passado, a rainha persa fazia exsurgir em todo e qualquer presente – numa arena romana ou numa intriga amorosa cosmopolita – as lembranças partilhadas por uma comunidade, revelando seus mistérios à medida que avançamos na penetração de seus significados. Mistérios como o do xeique Munamnam, que, aos cento e cinquenta anos de idade, não tinha um pelo branco sequer, segredo que remontava à sua mocidade, quando perdeu toda sua loja em razão de um incêndio. Mistérios como o de tanta gente que partiu para a ponta da praia.

Se de todos os fogos sempre o fogo, talvez devamos consumir o próprio acaso. Já foi dito em narrativa passada; digamos em narrativa simultânea: brinquemos com o fogo, vamos nos queimar.