Dois poemas de João Innecco

Dois poemas de João Innecco

Janeiro 17, 2019 0 By revistalavoura

i.

baby

apesar do medo eu percebi sua calça cáqui – que cor era aquela? – a nuca a silhueta te desejei no ponto de ônibus esses lugares passageiros estão cheios de gente como você ou é coisa minha isso mas há sempre alguém voluptuosamente interessante passando ligeiro com calça cáqui com canelas de fora eu vi sua meia rosa eu tava te olhando apesar do medo você sabe você olhou pra trás pra ver ou desver sei que o nosso olhar cruzou apesar do medo de cruzar olhos nesses dias você sabe a gente parou pra se olhar ou isso é coisa da minha cabeça mas era a sua cabeça girando e me procurando dentro do ônibus te achei primeiro até a gente ter retina rente nessa distância que balança motorista, calma ninguém tá com pressa aqui todo mundo percebeu que tem um calor rolando olha de novo pra eu ver que não é coisa da minha cabeça da minha carência tô saudoso de toque é verdade por isso a paranoia mas apesar do medo e graças às deusas os homens que estavam atrás de mim acabaram de descer  ainda há tempo? espero que não seja seu ponto porque apesar do medo eu aqueci no transporte público fiquei vermelho quente será que eu tô pensando direito? tenho medo agora que há fascismo escancarado nas esquinas eu queria saber você está se protegendo? porque flertar com você é gostoso mesmo sem palavra nenhuma assim na distância do busão balançando mas eu não consigo me desligar do fato de que pessoas como nós estão morrendo e eu nem te conheço eu só te achei lindo e se agora eu estivesse sentado ao teu lado interessado ofegante eu não te daria um beijo eu perguntaria você está olhando pros lados? olha pra trás do ônibus eu tô aqui e é importante olhar pros lados pra frente e pra trás até pra cima e pra baixo porque não se sabe quem estará de calça cáqui ou quem tem faca agora apesar do medo é imenso te encontrar e propor essa cama na cara de todos em plena consolação a gente sorriu um pro outro nesse segundo nessa segunda de medo e isso não é coisa da minha cabeça porque tá todo mundo com medo e foi você que virou a sua cabeça e levantou a sua sobrancelha e sorriu de volta quando eu sorri horrivelmente com medo eu queria poder sorrir solto contigo entre papos gemidos misturas escrevo num pedaço de papel um pequeno retalho um rasgo do meu caderno como você um rasgo da minha manhã pego esse papel apesar do medo e lutando pra não achar que isso é coisa da minha cabeça avoada chapada  mas eu estou de cara vivendo isso eu juro peguei o papel anotei meu número escrevi meu nome desenhei uma flor nem contei as pétalas para saber se bem me quer se mal me quer dobrei esse pedaço exageradamente conferi 2 vezes e segurando na ponta dos dedos como se tivesse prestes a te entregar esse míssil essa muda essa mensagem com nada escrito somente como me encontrar minhas diretrizes revisadas meu jardim dobrado apesar do medo eu te passei o papel quando seu ponto chegou num aperto de mão agora perto demais não precisava tanto te entreguei o papel e disse cuidado na rua eu disse cuidado na rua eu só podia dizer cuidado na rua enquanto você guardava no bolso meu bilhete meu verbo de eco meu nome

cuidado.

_

iii.

1.

sonhei com minhas amígdalas inflamadas

pus e outras nojeiras escorriam e eu corria 

pra espremer 

em frente ao espelho 

aberto 

como duas fendas dois vulcões 

minhas amígdalas enormes

engraçado porque já não tenho amígdalas 

as tirei sob anestesia geral 

em dezembro último 

 

2.

sonhei com mamãe 

e ela retornava brava 

na casa antiga amarela onde moramos na infância 

chegada do hospital onde morreu dizendo que era apenas uma brincadeira tudo 

e eu a retrucava aberto 

sangrado dizendo 

do funeral do caixão que carreguei 

dizendo

que ela não tinha 

esse direito 

de morrer

de brincadeira 

numa madrugada 

em maio último 

sem anestesia alguma 

 

3.

tenho sonhado com as inflamações daquilo que já não tenho

com essas partes que faltam as fendas

o apêndice que perdi já faz muito tempo logo depois de perder meu primeiro amor e antes de perder o território útero as roupas amuletos levados na paisandu na cara do palácio e da polícia ainda bem que eu não morri eram 4 fuzis

tenho sonhado demais com as perdas com as tiranias outro dia num sonho fui violentado por um homem enorme doeu eu gritei e chorei logo após perdermos o estado democrático de direitos

em outubro último

debaixo de muitas 

muitas 

mortes

 

_

João Innecco (1993) é poeta cantador, membro do Coletivo Transformação e dos Poetas do Tietê. É facilitador do Sarau Asas Abertas, realizado nos presídios do Estado de São Paulo, editor da Antologia Trans (Invisíveis Produções, 2017) e autor das zines independentes Fumaça (2017) e Tinto (2018). Possui textos publicados em revistas e antologias. Em 2018, participou do Mix Literário e da Mostra Textão no Museu da Diversidade Sexual (São Paulo).