Dois poemas de Laís de Aquino

19/02/2018 / postado por revistalavoura

Reiterações sobre um tema

o vento no canavial

as bandeirinhas de Volpi

os leões que Hokusai desenhou todos os dias

por 219 dias até morrer

 

a forma não se atinge nunca

na reiteração das coisas no tempo

as coisas – elas mesmas

são outras e tu

outro és

 

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,

o qual pisaste e tornarás a pisar,

numa configuração nunca idêntica,

porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

 

viver – eis a fissura

é estar inacabado até o fim

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Vida de campo

quando chega ao campo, minha vó logo

se deixa ficar ao terraço, à cadeira de balanço,

os pensamentos para cá e para lá

como a gente descansa nessa paragem do tempo

verde, quando faz chuva, nos meses de junho a agosto

nos demais meses o mato fica seco

a gente descansa nessa paragem do tempo

e eu lhe digo que do pouco que faço

também descanso

um dia me deixarei ficar toda a semana

morarei aqui

com meus cachorros, o rumorejo das árvores

ao vento e toda a saparia

minha vó ri e diz é tão bom

nem precisa de gente

eu rio e repito nem precisa

de gente

ao longe, em uma estrada que meu olhar alcança,

um ruído de motor de carro

minha vó fala sobre o silêncio

e sua voz e o silêncio se confundem

 

no campo, o vento é o maestro de todas as coisas

de tudo que rege,

o ar, o balanço das palmeiras, o voo

dos pássaros e sua fala de canto,

de tudo isto, sobe o silêncio

e no corpo adentra – imenso

 

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Laís Araruna de Aquino nasceu no Recife, em 1988. Estudou Direito na Universidade Federal de Pernambuco. É Procuradora do Município e poeta.

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