Dois poemas de Pedro Augusto Pinto

12/05/2018 / postado por Arthur Lungov

Paisagens

I

A rua amarga

o sul da América

domingo infindo, outubro

enfim.

 

Em mim: o túmulo

o que não vivi.

 

XII

 

Londres só é linda

porque cinza:

O Tâmisa se desenrolando feito um cachecol de lã

entre ombros de pedra.

 

Londres só é linda

porque triste.

   Do outro lado

um relógio                         05 p.m.

uma praça                         XIX AD

 

igual à praça em Recife

(salvo engano a Dezessete)

onde um tal de Sacadura

de sobrenome Cabral

foi pousar no fim de um voo

que partiu de Portugal.

 

Recife é linda, por razões

que o tal Sacadura sabia:

voou pra lá, o malandro

pra longe das águas do Atlântico

Norte, Atlântico Leste, Atlântico

frio.

 

Mas Londres só é linda

porque longe,

      atlântica,

oceânea distância

que perpassa metade de mim.

 

__

O abaporu

O olhar melancólico do comedor de gentes:

      de tantos sabores

      nenhum lhe agrada mais.

 

E pende pensativo em meio ao azul dos bananais

enquanto se espalham seus pés

e suas mãos tateiam em vão

 

e um sol, sonolento e manhoso

lhe propõe sempre a mesma questão.

 

__

Paulista de família mineira, Pedro Augusto Pinto trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu obras de Gógol e de Tchékhov, incluindo, deste, sua primeira peça de teatro, O órfão de pai, nunca antes publicada no Brasil. Seu foco, não obstante, é a obra do romântico Mikhail Liérmontov, tendo sido premiado em eventos acadêmicos pela tradução de seus poemas. Atualmente, além de tentar escrever um romance, estuda para os exames da carreira diplomática e puxa um bloco de carnaval.

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