Dois poemas de Pilar Bu

Dois poemas de Pilar Bu

janeiro 15, 2019 0 By revistalavoura

além da nebulosa

 

mergulhar no abismo

que transborda

expandir a coluna vertebral

e ganhar alguns centímetros

 

passar 288 dias fora da terra

e ver tudo como quem vaga

por tantas

e tantas órbitas

 

fazer cálculos intermináveis

ir aonde os sonhos mortais

não ousam habitar

para encarar a solidão

 

desafiar estrelas

nuvens moleculares

e o tal do desconforto

da gravidade perdida

 

não sou extraordinária como Peggy Whitson

 

mal sei a raiz quadrada

e acho impossível existir

onde a ausência

do outro se levanta

 

meus pés não estão

fincados no chão

mas gostam da dança

dos nossos corpos

quando se confrontam

 

sentiria falta do barulho dos carros

às seis da manhã

quando o gato testa

minha paciência

com um carinho na barriga

 

e do gosto de haxixe e cachaça

ganhando a boca

até do cheiro da morte

prenunciado por naftalina

 

do céu só sei do triplo-fogo

que queima no mapa

do zodíaco alheio

e da constelação de Sirius

que ronrona às seis da manhã

 

eu não tenho vocação

para matéria difusa

feita de plasma hélio

poeira e hidrogênio

 

meu corpo foi feito pra rua

 

 

dolores

para as mulheres da minha vida

 

as mulheres aprendem

a doer desde meninas

e vivem com muita muita dor

crônica de dente fibromialgia

enxaqueca cólicas cólicas intestinais

dores que carregamos todo dia

como se estivéssemos acarinhando

um cachorro um coelho

a barriga invisível de uma leoa

 

fazemos um contrato

implacável e eterno

um contrato com o demônio da dor

que todo dia vem à noite

verificar se estamos quietinhas

mansas controladas

empapuçadas de dor

 

algumas dormem com a gente

do lado da cama que não aquece

outras almoçam nossas vísceras

tem aquelas que trabalham

memorandos por décadas séculos

e nunca se esquecem de ir embora

 

viver sem dor é privilégio

privilégio que bicho fêmea

não tem desde o nascimento

eva esbravejando com adão

o paraíso não existe

é uma mentira mal contada

uma costela de outro cordeiro

jogada ao homem com a serpente

pronta para nos devorar

 

e o sorriso

que mulher performa

é cinismo ou cansaço

jeito de sobrevivência

ou vontade de cavalgar

a serpente matar adão

casar com outra eva

e viver na terra

sem traçar destino

escrito em papel engordurado

de bar

 

viver livre é privilégio

que bicho fêmea não tem

vontade de desbravar ruas

mas viver enjaulada no contrato

assinado com o demônio da dor

esse buraco no dente

que não fecha nem com argamassa

essa resiliência que te mantém

enclausurada

 

eu queria falar

sobre outros assuntos

lamber juntas nossas feridas

potencializar esses afetos

mover a resposta que nos emancipa

preparar a fuga de madrugada

tecer a trama que nos desconstrói

mas dolores dolores

o mundo me dói

 

_

Pila Bu (1983) é leoa, sereia e mãe felina de 4 gatos, fundadora e ex-mediadora do clube Leia Mulheres Goiânia. Doutoranda em Teoria Literária pela Unicamp, é autora do livro de poemas Ultravioleta (Kotter Editorial, 2017). É poeta publicada em diversas revistas eletrônicas e já participou das antologias literárias Maus Escritores (Demônio Negro, 2009) e Os olhos do Bilheteiro (Nega Lilu, 2016).