Elgín, por Natame Diniz

29/11/2017 / postado por revistalavoura

Título do projeto: Elgín
Ano de produção: 2016

 

Ei-lo passa e repassa, absoluto em deserto segredo, essencialmente absorto.
Só parece que ri e grita, suspenso, obrigatório cada movimento, incessante
brusco mudando daqui para ali a inércia, em pedacinhos de velocidade.

João Guimarães Rosa, Ave, Palavra

 

Estou sentada em uma cadeira perto da sala dos azulejos, olhando fixamente para o movimento de pessoas indo e vindo das passagens de Generalife.

O menino, de mãozinhas pro ar, tremeliquento, entra pela passagem aberta com uma rapidez que quase me põe no chão:

– Papa, papa, mira! Todo es muy grande!

De súbito levantei-me e posicionei a câmera de modo que ela se tornasse uma extensão do corpo do menino – uma sombra, um reflexo – e o segui durante todo o percurso do passeio pelos recônditos de Alhambra.

Cada pedaço de seu corpo foi capturado com a intenção de transpor os movimentos, tão leves, assim como sua presença se fazia leve naquele espaço. As mãos no parapeito, atentas, os olhos vibrantes, o corpo em êxtase pela descoberta de um novo lugar, uma nova possibilidade, uma nova paisagem.

E no meio de minha pesquisa, ou melhor dizendo, de minha ânsia em capturar momentos humanos que transitem por um tempo para além do cronológico, tenho esse encontro de um dia com Elgín, o menino de Alhambra.

Elgín é o nome de um desconhecido que me olha.

Natame Diniz é cientista social e educadora, e pesquisa a literatura feminina contemporânea. Atualmente trabalha no Instituto Tomie Ohtake como coordenadora do projeto “Prêmio Territórios Educativos”. Escreve no blog Dobra Tua Língua. É autora do livro Dexistir (Patuá, 2014).

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