Elvira Vigna (1947-2017)

Elvira Vigna (1947-2017)

julho 10, 2017 0 By Lucas Verzola

O último dez de julho foi marcado pela passagem da imensa Elvira Vigna, voz fundamental não só para a contemporaneidade, mas para a literatura brasileira como um todo. A Lavoura recebeu a notícia com enorme pesar e, como forma de prestar nossas homenagens, convidamos o escritor José Santana Filho, apaixonado pela obra de Elvira e por ela própria, para escrever um breve texto.

Minha primeira vez com a Elvira Vigna foi n’O que deu para fazer em matéria de história de amor’, e este foi só o primeiro de uma série de primeiros que vieram depois. Foi, por exemplo, a primeira vez que levei a sério – por identificar e reconhecer – o que vem a ser a tal escrita econômica, que nunca me bateu a passarinha, e para a qual mostrei a língua e dei as costas sempre que ouvia dizer: “é isso aí, é assim que se faz, são os novos tempos”. Pois a escrita de Elvira Vigna é econômica, não por pão-durismo ortográfico ou aquiescência à preguiça mental de leitores anêmicos, mas pela capacidade de afundar ao mais fundo e submergir ao mais alto em cada palavra, cada uma delas arauto dos inúmeros signos e sentimentos, intenções e significados de sua escrita – desde sempre, como descobri depois, cortina de tecidos sobrepostos, nuances e matizes, potencializados no excepcional “putas”, que é como ela tratava o último livro que publicou: “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”, e já vou na terceira leitura, pra ver se aproveito, aprendo e depreendo um pouco mais, ainda à espreita do mistério.

A primeira vez que estive com a Elvira foi no restaurante cheio de comida boa onde ela costumava comer, ela na fila de entrada, esperando na calçada, longilínea, “11 e meia em ponto, pra pegar lugar”, e de novo o impacto: largo, alto e fundo este encontro, cheio de pequenos sabores, doces, acres, suaves, cortantes, acesos, da forma como o restaurante, vegetariano – eu, da carne – revelou-se condimentado dos mais surpreendentes temperos, como também experimentei no convívio mais ou menos intermitente que se seguiu, no próprio restaurante, na minha casa, na dela, Roberto, Will, Boio, Bento, uma farofa de caranguejo e quibes acompanhados de cerveja com e sem álcool, e histórias as mais saborosas de ouvir, e olho miúdo, e arregaladíssimo, verve e têmpera, risadas, poucos agudos e graves subterrâneos.

Fato é que aqui me pediram um texto com até 500 palavras, não sei o que é isso no computador, já devo ter gasto um monte delas para falar de alguém tão criterioso nesse manuseio, então vou aproveitar o resto de espaço para escrever graça, molequice, integridade, delicadeza, substantivo, irreverência, aridez, sensualidade, irrupção, bicho, inteligência, perspicácia, alvorecer e fim de tarde, camponês, índio e megalópoles… e vou botar dentro de um balão branco e vermelho e caminhar até o terreiro aqui no quintal de casa, acender o fogo e vê-lo subir fora da temporada de balões, para toda vez que quiser reviver a experiência dos encontros sólidos eu tenha para onde dirigir os olhos e trocar de pele, tirar a pele morta, palimpsesto.