Entrevista com Mailson Furtado, autor de ‘à cidade’ (Prêmio Jabuti 2018)

Entrevista com Mailson Furtado, autor de ‘à cidade’ (Prêmio Jabuti 2018)

dezembro 1, 2018 0 By revistalavoura

Mailson Furtado surpreendeu a todos este ano, ao ver-se agraciado com os prêmios Jabuti de Poesia e de Livro do Ano, com seu livro de poesia à cidade, publicado de forma independente, sem contar com o trabalho de uma editora. Não apenas foi a primeira vez em que o Livro do Ano foi concedido a um autor independente, mas a última vez em que o livro premiado nesta categoria coincidiu com o ganhador em Poesia foi com Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar, em 2011, autor que é uma das referências de Mailson.

O livro, formado por um único poema longo, dividido em quatro partes, explora a formação de uma cidade no interior do Ceará: sua história, suas contradições, seus habitantes e seus significados. Tributário não apenas à cultura popular da região nordestina, incluindo-se sua poética, entreve-se em sua leitura a influência de autores clássicos da literatura brasileira, como João Cabral de Melo Neto e Gerardo Melo Mourão. Curiosos por destrinchar esse livro, os editores da Lavoura procuraram Mailson, que concordou em conceder uma entrevista. Eis o que segue:

LAVOURA: Seu livro, à cidade, é formado por um único poema, separado em quatro partes, cada uma nomeada a partir de um tempo verbal (“Presente”, “Pretérito”, “Pretérito mais-que-perfeito” e “Futuro do pretérito”), e identificada por uma letra do alfabeto grego (α, β, γ e δ). Essa evocação da matriz linguística grega, e da temporalidade na nossa própria língua, nos faz pensar em uma linguagem que se pretende ancestral, palavra apriorística. Podemos falar que o poema possui certo caráter épico, no sentido de formador da comunidade de onde desponta, de início do espaço que você explora a partir do Verbo?

MAILSON FURTADO: A nomeação das partes foi o último elemento a aparecer no livro, feita na lapidação da obra depois de escrita. A divisão das quatro partes já estava feita, e precisava de algo que as relacionasse, um elo que tornasse sua relação consistente. Quem me apontou a necessidade dessa conexão foi Oswald Barroso, professor da Universidade Estadual do Ceará. Depois de muita pesquisa, veio a ideia desses tempos verbais, que de certa forma mapeiam pontualmente o poema. O ‘Presente’ é a cidade como ela é, como ela pulsa naquele instante, a cidade por ela mesma; o ‘Pretérito’ já traz alguns elementos formadores, históricos, geográficos, antropológicos, sociológicos; o ‘Pretérito mais-que-perfeito’ traz a busca de uma análise de porque aquela cidade não poderia ser diferente daquilo, porque sua formação a condicionou a apresentar sua estrutura atual; e o ‘Futuro do pretérito’ é o futuro da própria cidade, suas possibilidades. Penso que o poema tem, sim, algo de épico, por trazer muitos elementos de formação histórica, uma reflexão sobre como essa cidade, essa região, essa população pôde se formar. A partir disso, acredito que a épica está presente, não como plano de fundo central da obra, mas ao menos como espécie de moldura. Talvez essa influência venha principalmente da poesia de Gerardo Melo Mourão, e seus questionamentos sobre a formação do Brasil, principalmente do sertão. Creio que, além dele, outras duas influências foram centrais na escrita do livro: João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Trouxe essas influências nas costas pra construção dessa obra.

L: Vemos na obra a exploração de elementos linguísticos que aproximam versos, como as semelhanças sonoras e morfológicas de certas palavras, assim como o uso ostensivo da repetição e do paralelismo. Como os recursos linguísticos que você utiliza atuam no tratamento do tempo e do espaço que a voz lírica do poema pretende construir, na descrição da cidade e de seus habitantes?

MF: Esses recursos são usados especialmente para pontuar algumas passagens e formar a imagética e a dinâmica do poema. Creio que essas repetições e esses paralelismos contribuem para tornar a obra pulsante, assim como a sonoridade que busco, especialmente nas rimas toantes, influência que vem inegavelmente da poesia popular do nordeste, com seus trovadores, vaqueiros, e cantadores. Na construção do trabalho em si, não procurei me fiar tanto na técnica, e muito do que desenvolvi veio organicamente, o que acaba por gerar leituras posteriores interessantes, potências que não via ali, em um primeiro olhar.

L: O posicionamento dos versos forma uma mancha na página que não podemos deixar de atrelar ao curso do complexo imagético rio Acaraú – sangue– tempo, que é evocado na segunda parte do poema. Curso que também lembra o caminhar tortuoso pela cidade. Mas mais do que formar esse desenho, essa disposição colabora com os recursos poéticos já mencionados, gerando paralelismos que surgem da posição das palavras, e dão a impressão de termos elípticos, pois dispensáveis a partir do alinhamento dos versos. Essa economia, ao mesmo tempo em que proveniente da linguagem falada, cotidiana, nos remete à eficiência, ao calculismo da engenharia e do urbanismo. Há, na linguagem do livro, essa preocupação em emular os movimentos pedestres, esse prosaísmo da caminhada que convive com a tecnicidade da urbe?

MF: Como disse, não houve demasiada preocupação com a técnica na construção do poema. Concordo na existência de elementos que podem ensejar uma leitura que encontre certas imagens na disposição dos versos, mas não foi algo premeditado. Algo, no entanto, que pensei na composição da obra, é o caráter intermediário que a cidade cantada ocupa: nem uma megalópole, nem um ambiente rural, é uma comunidade que se informa pela FUNCEME (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos), mas que se atenta ao canto do acauã como presságio da seca. É no pulsar dessa cidade em construção que parte do dinamismo do poema vem, elemento que se mostra presente também na disposição dos versos.

L: Ao longo da leitura, ficamos com a impressão de que o poema vai se particularizando, diminuindo seu escopo até chegar no tratamento atomizado do indivíduo: da primeira parte, que descreve um dia na cidade, tratando-a como organismo vivo, em constante movimento por conta de seus habitantes; até a quarta, em que mergulhamos na memória afetiva do eu lírico, e a relação de sua história pessoal com a cidade. Qual função você procura imprimir nesse movimento de aproximação?

MF: Admito não ter percebido esse movimento, a princípio, mas concordo plenamente que ele está lá. Essa questão, de uma passagem do macro para o micro, surge da interiorização da cidade, de sua construção que penetra carne adentro o indivíduo, que marca e tatua os habitantes. Vejo nessa transição uma busca no poema pela personificação da cidade, assim como pela urbanização do leitor. Uma troca de influências que acho essencial na poética da obra.

L: Os poemas focados em temas citadinos, em que o indivíduo explora a cidade pelo “arquivo dos pés”, nos termos postos por Dércio Braúna no posfácio do seu livro, costumam tratar de grandes centros urbanos, e da vida cosmopolita e apressada que as megalópoles costumam exigir de seus habitantes. Na contra mão dessa tendência, o à cidade, dedicado a um município interiorano, parece exigir um ritmo muito mais reflexivo, marcha lenta na medida em que o processo de urbanização não se mostra em sua máxima potência, mas enquanto fenômeno em progresso, jamais produto final, mas história em curso. Em que medida podemos ver essa condição no tratamento que o livro dá à cidade, e como ela se distingue dos livros que tratam dos grandes centros urbanos?

MF: Como já mencionei, creio que a obra se diferencia exatamente por essa mescla, essa inexatidão do que é a cidade do interior: um espaço em que convive o folclore típico dos ambientes rurais, mas em que a cidade chega rasgando tudo com concreto, com uma modernização que contrapõe o cenário do sertão. É uma urbanização recente, de 15, 20 anos, mas que, com a tecnologia de massas que implica, transforma a vida da população de forma inegável e irreversível. É a coexistência de ritmos rurais e urbanos, uma mistura que não se define, mas que apenas é, e que podemos ver na toada do poema, em sua marcha híbrida.

L: Não podemos deixar de pensar em exemplos clássicos na literatura brasileira de obras poéticas formadas por um longo poema, como o Poema sujo, de Ferreira Gullar, obra com a qual seu livro muito se assemelha. Mas também nos vêm à mente expoentes contemporâneos que exploram o poema-livro, como as obras mais recentes de Carlito Azevedo. A opção por esse formato foi dirigida conscientemente, um gesto de inclusão do à cidade em uma linha contemporânea que se forma no sentido de questionar o livro de poesia enquanto mera reunião de poemas, e sim enquanto projeto literário inteiriço, fechado em si? O poema exigia esse formato?

MF: A história da construção do poema é muito marcante pra mim. Um poema tão longo, na minha obra, pré e pós o à cidade, é um ponto fora da curva na minha produção. Meus poemas não costumam ultrapassar uma lauda. Foi uma composição que me tomou por 20 dias em novembro de 2015, entre pesquisa e escrita, em um jorro que não admitiu pausa. De certa forma, foi algo que considero inconsciente, essa febre ao escrever meu único poema longo. Pode ter havido, de forma inconsciente, influência das minhas leituras na época, marcadas por poemas longos, especialmente a obra de Gullar, alguns trabalhos do João Cabral e Melo Mourão. Mas essa contaminação não foi planejada, forçada para que o poema tomasse esse formato. No entanto, reconheço que desde 2014 minha produção orienta-se sempre por uma concepção de livro, é dirigida a fim de que o livro seja composto por poemas que o integrem organicamente, e que tenham uma razão para estar ali. Um livro não é um álbum de retratos, sem quê nem porquê. Nesse sentido, creio que faça parte dessa movimentação poética que pensa o conjunto do livro enquanto projeto, e não enquanto mera reunião de poemas.

L: Para finalizar: algum projeto futuro no horizonte? Você pretende continuar a exploração poética desse livro em outros trabalhos?

MF: Já estava, na verdade, com um projeto em andamento quando da premiação do à cidade. Publiquei no dia 29 de novembro deste ano um livro chamado Passeio pelas ruas de mim [e de outros] (2018, Luazul Edições], que traz um conjunto de poemas em que venho trabalhando desde 2013, e traz influências que ainda não havia explorado em minha poesia, especialmente coisas vindas das artes visuais (tanto do estudo das artes visuais per se, como coisas que trago da minha incursão no mundo teatral, e que me ajudou a construir uma imagética). Descreve-o como um “livro galeria”. Trago, também, alguns poemas em formato de crônica, e micropoemas. Nesse livro, pretendo traçar uma cartografia de experiências que tive enquanto artista, e a cartografia por si mesma. Nesse sentido, acabo tangenciando, ainda que de forma bem menos acentuada, a questão da cidade e da urbanidade, do pedestre. Mas a continuação da poética do à cidade não é algo com que me preocupe, que pretenda continuar seguindo.

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Mailson Furtado é ator, diretor, produtor cultural e cirurgião-dentista. Fundador da Companhia Teatral Criando Arte de Varjota|CE, autor do livro à cidade (2017), vencedor dos prêmios Jabuti de Poesia e de Livro do Ano de 2018.