“Étienne Froment, biógrafo”, conto de Angelo Rodriges

Janeiro 16, 2018 0 By André Balbo

I

No ano de 1794 morria em Paris pela lâmina da guilhotina, Étienne Froment, que teve por última vontade repousar eternamente no Cemitério de Montparnasse, a dez passos de seu admirado Maximilien de Robespierre. Aos amigos que lhe restaram no ano de sua morte, redigiu um lacônico pedido falando do seu desejo de saber que sobre sua lápide repousaria um epitáfio de poucas palavras: “Biógrafo, eternamente.”

O pouco empenho da burguesia e a pressa dos operários artesãos e camponeses em apagar as lembranças da França feudal-absolutista, desterrando a fome, a miséria e o sofrimento dos pobres, acabaram por ceifar parte de sua longa biografia, suas muitas obras e suas posses: Étienne foi surpreendido no castelo de Jacques Necker, então Fiscal Geral de Luiz XVI, empenhado em dar cabo de um frugal café da manhã, em horas que antecediam seus trabalhos de biógrafo. Seus longos e esparsos escritos foram confundidos imediatamente com anotações dos odiosos Tributos Feudais e queimaram no mesmo fogo que consumiu a residência dos Necker.

Amargou cerca de quatro anos na prisão até ser guilhotinado em 28 de julho de 1794 nas preliminares de Saint-Just, Couthon e Lavoisier. O que hoje se conhece desse homem singular deve-se a vagos documentos e esparsas lembranças, sobreviventes de todas as mortes.

Sabe-se pouco desse francês. Diz-se que despertou para o mundo pela via da lógica aplicada, quando, ainda lhe faltando as presas ao sorriso, desafiava serviçais da família a combatê-lo no tabuleiro de xadrez. Poucos se atreveram a fazê-lo, e aqueles que aceitaram caíram vencidos frente à prodigiosa habilidade do infante. Daí até a idade de dezoito anos ocorre um hiato em sua história; o qual incumbem-se seus biógrafos, como de hábito, em preencher com sólidas especulações. Uma linha média tirada entre os escritos hoje conhecidos e disponíveis o faz partir para a Itália, aos quatorze anos, para instruir-se no caudal da Renascença. Vagou por Florença, Veneza e Milão estudando a Arquitetura, a Pintura e a Estatuária e, ao mesmo tempo, especializando-se na confecção de presépios mecânicos e autômatos mirabolantes, todos em miniatura.

Retornam à fidelidade dos fatos ao associá-lo a Antoine Watteau, que é quando Étienne Froment descobre os prazeres e o esplendor da vida aristocrática que a pouca idade lhe negara até então, além, consequentemente, do romantismo úmido e ébrio que as scènes champêtres de Watteau produziam. Tomado pela compulsão de pintar, alojou Watteau no Castelo de Saint-Frusquin, propriedade de sua família, e se fez discípulo obstinado. Sua vida se avolumou.

Algumas pinturas de Étienne, que julgadas hoje sob as luzes do rigor técnico não passam de pastiches bem copiados de Watteau, introduziram-no na sociedade coquete de sua época. Mas isso não foi tudo: sua amabilidade, suas longas viagens às terras italianas e o conhecimento do latim que falava, sua origem sensível e o acúmulo dos bônus do reino francês, fizeram-no figura de destaque nos récitals et fêtes galantes, onde adquiriu o hábito de cortejar as damas ofertando a elas suas pinturas florais, cenas campestres e grandes quadros com animais de estimação. Num arroubo de extrema empáfia e pretensão desmedida e equivocada, Étienne presenteou o milionário e mecenas Pierre Crozat, le pauvre, com uma sensível chinoiserieArtis Magnæ, segundo Étienne ― e amargou por longo tempo as lembranças das diatribes que dele ouviu; Crozat odiou tudo que pôde ver no Castelo de Saint-Frusquin.

Por algum tempo Étienne viveu abraçado à arte da pintura buscando a síntese feliz de Flandres e Veneza; nada conseguiu. A morte prematura de Antoine Watteau em 1721, aos trinta e seis anos, prostrou-o de forma singular. Étienne tinha então vinte e um anos, um moço. Interrompido em seus anseios pictóricos, manteve-se recluso no castelo por muitos meses, retomando uma atividade havia muito abandonada, quando passou a construir presépios e autômatos mecânicos. Arquitetou a reconstrução do Palácio Real e toda a corte em forma de maquetes articuladas: Luiz XV surgia à porta do seu Palácio, espocavam alguns fogos de pouca monta, e era reverenciado por duas filas de trinta bonecos de madeira que o saudavam dobrando os rins enquanto um sistema fonomecânico se incumbia de exclamar de forma uníssona algo como: v’vvv-l’fransss! As poucas peças da enorme composição que restaram intactas encontra-se no porão do Castelo de Saint-Frusquin, que hoje vem servindo de sede clandestina a um sindicato de taxistas de Paris, sem título e sem mérito ao artista.

Manteve o atelier ativo por um longo tempo, abstendo-se de criar qualquer coisa mais relevante que cópias. A força da apatia que lhe tomava permitiu apenas que produzisse sucessivas pinturas servis, inteira mimese da obra do mestre Watteau, até a exaustão, acumulando-as pelas inúmeras salas da residência. Ao cabo de quatrocentos e oitenta reproduções, toda a obra de Watteau se lhe havia vulgarizado, sendo, até para ele, impossível identificá-las em meio a tantos duplos, triplos, quádruplos; falsos de falsos absolutos que criara ao longo de muitos anos.

Prostrou-se, tonto, por sofrer esta nova perda. Sua vida definhou com extrema rapidez até quase ao encontro da morte. Salvou-o o Barão de Montesquieu pondo em suas mãos Do Espírito das Leis, o que o fez abandonar definitivamente seu atelier de pintura para tornar-se financiador, em dois anos, de suas vinte e duas edições. Tanta dedicação à coisa literária valeu-lhe o convite para redigir o capítulo sobre A Grandeza da Arte para a Enciclopédia das Ciências, das Artes e dos Ofícios, já em andamento.

No entanto, quando da primeira edição da Enciclopédia, notou-se não haver qualquer menção ao nome de Étienne Froment. Descobriu-se posteriormente que seus artigos, verborrágicos e extensos em demasia (considerados pedantes demais até para a época), foram aplainados até perderem qualquer consistência e, ao final, acabaram cortados da publicação.

II

Mas se o Barão de Montesquieu o fez abstrair dos interesses pictóricos, foi Jean-Jacques Rousseau quem mudou definitivamente o eixo de seus esforços, e para sempre. Ainda no burburinho do prelo da Enciclopédia, conheceu os manuscritos Da Origem das Desigualdades que Rousseau revisava e se pavoneava mostrando-o aos mais íntimos. A ingenuidade e o pouco conhecimento dos conflitos sociais da época fizeram de Étienne um apaixonado pela obra. Devorou-a sofregamente e logo levou-a à prensa. Com a cabeça em giros, Étienne pôs Rousseau sob sua inteira tutela financeira e a publicação correu por sua conta e custo, embora tenha Rousseau negado veementemente o fato em consulta posterior.

Por longo tempo Étienne andou pelas ruas de Paris recitando trechos da obra sobre os horrores da riqueza frente à pobreza, do latifúndio frente ao campesinato, da monarquia frente à república; lidos diretamente dos manuscritos que adquirira de Rousseau. Não obstante os esforços de Étienne pela emancipação política da triste e ignóbil ralé parisiense, foi escorraçado centenas de vezes. É quando, benevolente ao extremo, atribui esse fato à desnecessária ignorância do povo, embora o povo não pudesse compreender o latim que Étienne insistia em falar.

Desiludido, recolheu-se novamente ao Castelo de Saint-Frusquin onde reviu os textos cortados da Enciclopédia e rascunhou em folhas soltas uma displicente biografia de Jean-Jacques Rousseau. Após lhe financiar a publicação do Contrato Social, Emilio e Devaneios de um Caminhante Solitário, propõe a Rousseau deixar-se biografar.

Por um ano inteiro Étienne andou à roda de Rousseau anotando todas as palavras que dizia, inquirindo-o sobre seus pensamentos e sentimentos e rascunhando inumeráveis croquis do biografado. São dias cheios, pois a ilegalidade das obras de Rousseau fá-lo fugir para Genebra e depois para a Prússia. As constantes perseguições e o assédio de Étienne, o põem rumo à Inglaterra consorciado a um grupo de huguenotes durante uma tempestade, tendo ele a cautela de certificar-se de que Étienne ficara para trás, que não o seguia. Rousseau desembarca do brigue em 1765 com o mal da demência e a mania de perseguição. Biógrafos não autorizados, em anos posteriores, atribuem essa mania doentia de Rousseau adquirida pela imponderável onipresença de Étienne Froment à sua roda, suas inconveniências, inquirindo-o sobre seus pensamentos, desenhando seu rosto, suas mãos, seus pés, suas roupas, e anotando dele cada palavra que era dita.

Em tristezas, Étienne regressa a Paris e refugia-se novamente em seu castelo. Tinha em mãos quatro mil e duzentas páginas manuscritas e oitocentos e quarenta esboços em que retratava cada detalhe do corpo de Rousseau. O trabalho inconcluso e o súbito desaparecimento do companheiro prostram-no sobremaneira e o fazem retomar novamente ao hábito das maquetes articuladas e dos autômatos mirabolantes.

À maneira de Giuseppe Arcimboldo, que aprendera a admirar quando de seus estudos na Itália, Étienne constrói oito quarteirões de Paris, incluindo o Sena e a Notre Dame. Imaginando o cenário como uma festa campestre — não abandonara as lembranças de Watteau —, o bispo mirabolante (uma miniatura de lata e corda) saía da catedral, dava três passos, caia ao chão e rolava até o Sena, enquanto uma multidão de minúsculos bonecos articulados voltava a gritar como na cena do Palácio Real: v’vvv-l’franssss! Esta obra findou por inconclusa, uma vez que a putrefação dos vegetais e hortaliças que compunham o conjunto arquitetônico, faziam ruir seguidamente as edificações.

III

Desta vez é Voltaire quem o resgata dessa febril e inútil atividade, e por alguns meses trabalham juntos nos manuscritos biográficos de Rousseau, aplainando-os e aparando-os até serem resumidos a algumas páginas dignas de publicação; o que finda por não acontecer. Étienne sentiu-as simplória e superficial, não compondo, como era de seu desejo, a biografia definitiva; fixara-se nisso. Somava-se ao que lhe ocorria o fato de Rousseau viver em alguma parte da Europa pensando, falando e agindo, o que, definitivamente, forçava-o a não pôr um ponto final em seus escritos biográficos. Parecia-lhe conveniente aguardar os acontecimentos, saber mais de Rousseau.

Fez quatro viagens a Bordeaux na esperança de reencontrar-se com o Barão de Montesquieu para concluir sua biografia, uma vez que não conseguia imaginá-lo morto; a grandeza da obra do amigo não lhe permitiria jamais a mortalidade. Quando da volta a Paris encomendou mais cinco edições de Do Espírito das Leis e as pôs no prelo.

Foi a confluência da enorme fortuna de Étienne com as manifestações apaixonadas de Voltaire contra o regime político servil e o excessivo mando da Igreja Católica que selou o destino de ambos: depois de financiar inúmeros panfletos políticos que entupiram Paris de propaganda anticlerical, Étienne demoveu Voltaire a deixar-se biografar de forma radical e definitiva.

Por um ano inteiro Étienne andou à roda de Voltaire anotando e inquirindo-o sobre seus anseios, juízos e necessidades, ao fim do qual, exausto e completamente desorientado, rompeu-se a amizade que os unia, e Voltaire, solicitando-lhe que o esquecesse, foi viver sob a proteção de Catarina II, da Rússia, em refúgio e acolhimento. Dizia aos amigos que o afastassem a qualquer custo de Étienne; os amigos deram-no por delirante por não saberem nada sobre Étienne.

Atordoado em seus propósitos, tinha Étienne duas mil e novecentas páginas inúteis nas mãos, logradas ao despropósito da interrupção da biografia de Voltaire. Andou ainda à roda de Marat, Danton, Mirabeau, Robespierre e do próprio Rousseau, que se sentindo novamente perseguido, teve que refugiar-se em Ermenonville, sob a proteção do Marquês de Gérardin, vindo a falecer de apoplexia sem ser alcançado por Étienne. “Graças a Deus”, costumava dizer Rousseau em balbucios quase alucinados, em seu refúgio. Todos negaram a Étienne tal empreitada.

IV

Impossibilitado de fazer as biografias das eminentes personalidades de sua época, Étienne retirou-se para o campo onde passou cinco anos sob completa reflexão, só regressando novamente a Paris depois de asseverar-se, num raríssimo rasgo de lucidez, de seu inominável equívoco: a biografia radical tinha insuperáveis inconvenientes. Mostrava-se sempre inconclusa pela desistência do biografado ou pela possível súbita ou previsível morte do biografado. Avaliou ainda que os inevitáveis vexames e desconfortos a que se submetiam seus entrevistados, faziam sempre com que lhe mudassem o rumo das ações, tornando seus atos e seus pensamentos carentes de naturalidade. Compreendeu que sua constante presença maculava a biografia que escrevia.

Foram as palavras de um moribundo que lhe deram o mote para seus futuros trabalhos. A saber: enquanto ouvia, na estrada de retorno a Paris, as discussões entre a Milícia do Rei e a Milícia do Cardeal sobre a conveniência de enforcar, ali mesmo, um camponês contumaz devedor do fisco, ou levá-lo à guilhotina, Étienne teve o corpo tomado pelo frêmito da inesperada boa colheita. Disse-lhe o coitado em juízo de fenecimento: Na hora da morte, toda minha vida se me descortina diante de meus olhos!

Como em ambos os lados das milícias houvesse bons oradores e fartassem os vinhos e as vitelas, Étienne biografou o homem ao longo de três dias, obtendo concisos relatos, eivados de puras verdades e profundos sentimentos. Ao cessarem os argumentos de ambas as milícias, o biografado de Étienne pendeu na ponta de uma corda.

Renascido, Étienne arquitetou mentalmente a edição das “Biografias Agonizantes”, abandonando finalmente a ideia de tratar personalidades estelares. Lidaria a partir daquele momento com o ladrão, com o herético, com o simoníaco, com o assassino, com o ínfimo, com a ralé social da França. Esqueceria as estrelas do passado.

Biografou por oito dias o calceteiro Jérôme Petit, que após ser mordido por seu próprio cão de estimação descobriu que ao mordê-lo o cão lhe roubara a personalidade, deixando em troca a sua. Vendo-se na contingência de matar cinco mulheres a dentadas e ser condenado à guilhotina pelo Condado de La Rochelle, declarou-se inocente e pediu que com ele seu cão fosse também decapitado, procedendo depois a reordenação das cabeças (e das personalidades, disse ainda). Tantos relatos renderam a Étienne oitocentas e noventa páginas de tagarelices que, depois de severamente limadas ao nível do que se possa chamar de literatura biográfica, reduziram-se à concisão desejada: restaram seiscentas páginas.

Dando prosseguimento às Biografias Agonizantes escreveu a trajetória de Monsieur Napró, Le Médecin, homem culto da sociedade de Avignon que achou por bem capar o sexo dos travestis que habitavam as horríveis espeluncas musicais daquela cidade, tornando-os verdadeiras mulheres, como insistia em dizer. Foram-lhe atribuídas vinte mortes por absoluta imperícia de seu bisturi. Afirmou Monsieur Napró, entretanto, que Avignon era a Terra dos Papas e sua incumbência era mantê-la em ordem, pondo ou tirando as coisas de seus lugares. Mais tirando do que pondo, chamou a si mesmo de O Novo Ordenador de Avignon. Pendeu no laço de uma corda.

A impropriedade do linguajar utilizado pelos biografados e a abusiva explicitação das demências relatadas nos textos de Étienne, tiveram os freios da Igreja e os atritos do Reino, sendo recolhida e queimada toda a primeira edição das Biografias Agonizantes. Étienne, por pouco, escapole do rol do Santo Ofício quando alegou corretamente não serem suas as palavras que o livro reportava, mas dos agonizantes, fato que levou alguns dos seus biografados escaparem da guilhotina e terminarem queimados sob as ordens do Directorium Inquisitorum. Sob absoluta suspeição, Étienne Froment manteve-se inativo por algum tempo, ficando sob os olhos atentos e desconfiados do Braço Secular e dos homens sérios do Reino Francês.

V

O choque de ver seus livros queimados abateu-o até quase a desistência, mantendo acesa apenas a chama da obstinação, limitado a compor ralas biografias de camponeses sem atrativos. Vagueou por Lille, Anzin, Marseille, percorrendo feudos e grêmios de artesãos. Visitou padeiros, alfaiates, açougueiros, tintureiros e feirantes, tudo em busca da mínima biografia, onde anotava datas de nascimento, casamentos, filhos se houvesse e o ano das mortes se fossem lembrados por alguém.

Uma chama de recuperação permitiu que vislumbrasse o maravilhoso e o grandioso naqueles cotidianos imperturbáveis, repetitivos, mesmo não havendo qualquer fato, ação ou pensamento estupefaciente naquelas vidas. Encantou-se pelo suor, pela fibra, pelo pouco, pelo simples. Imaginou colher o resumo daquelas vidas sob o título Vidas Fantásticas para futuras edições, mas acabou por fazê-lo apenas por exercício. Infelizmente, sua percepção de estar criando a corrente minimalista biográfica era afetada pelo esmorecimento que o consumia e não deu a ela continuidade. Por extrema ironia, acabou por servir ao Serviço do Censo da Revolução, que usou seus manuscritos para balizar o modus vivendi do homem pequeno da França. Posteriormente seus dados — gênero, ano de nascimento, ano de morte, etc. —, foram compilados e utilizados com sucesso para construir a primeira Tábua de Mortalidade da França, adotada por muitos atuários da Europa por quase um século.

VI

Com as faculdades mentais afetadas, Étienne recolheu-se às próprias fantasias, imaginando-se personagem dos quadros do antigo mestre, Watteau; inscreveu-se nas scènes champêtres indo viver no campo até tornar-se saltimbanco e empregar-se como marionete humana numa trupe de Wurtemberg que percorria o interior da França.

Exaurido mentalmente, tentou ainda A Biografia dos Animais Fantásticos. Foi quando desenvolveu a sua particular cosmogonia dos seres vivos sobre as Terras, definindo-os como pertencentes a cinco reinos distintos: animais de pena, animais de pelo, animais de couraça, animais de escama e animais de corpo nu. Estabeleceu, ainda, como representantes de tais espécies, a fênix, o licórneo, a tartaruga, o dragão e o homem. Para cada uma dessas espécies teceu detalhamentos e definiu aptidões. Discorreu longamente acerca de um basilisco da Terra Plana, de uma enguia ígnea de Tule e de uma perca fluviatilis da Hiperbórea. Falou de sua fantástica capacidade magnética para navegação e a descreveu como tendo três cabeças, que afirmou serem de Cloto, Láquesis e Átropos, embora tivessem no corpo a aparência de um bode.

Resgatado por velhos amigos da demência extrema retornou ao Castelo de Saint-Frusquin, passando a dialogar com as coisas. Tentava extrair-lhes a biografia completa, a gênese, o mundanismo e a decadência. Foi tido por louco quando se descobriu imaginar que as coisas com ele dialogavam em seus infindáveis saraus biográficos. Completou a biografia das portas centrais da Catedral de Notre Dame, de uma wunderkammer, de um capacete atribuído a um General da Northumbria que defendeu a coexistência da Heptarquia Britânica e trabalhava com afinco sobre os dados do que supunha ser o signo maçom de Carlos Magno. Imaginou editá-las sob o título de Biografia das Coisas Célebres, mas por obra de um segundo e raríssimo lapso de lucidez, declinou frente a suas próprias ponderações.

VII

Finalmente, em 1790 Étienne foi apanhado pelo braço da revolução quando fazia, na casa de Jacques Necker, a biografia de uma ― irônico! ― guilhotina. Amargou quatro anos no cárcere. Todo esse tempo levou o Estado e a Igreja para decidirem se o levariam à guilhotina ou à fogueira. De tantos males a que se referiam os litigantes, da morte de Étienne Froment sobraria um fabuloso espólio a ser incorporado ao patrimônio do vencedor. Venceu, por óbvio, o Estado e a guilhotina, embora a França tenha cedido o espólio à Santa Igreja. Restou conforto às partes.

No cárcere biografou alguns companheiros de cela imaginando aumentar as Biografias Agonizantes. Ensaiou a própria biografia, uma vez que na condição de condenado terminal, achava-se perfeitamente abrangido.

Ouvindo ainda os ecos lamentosos de Lavoisier pela Place de la Concorde, Étienne subiu ao patíbulo calcinado pelas incertezas, arruinado pelos anos — contava então com noventa e quatro anos — e pelas decepções que acumulou, seguiu registrando seus últimos momentos sobre esta terra. Seu desânimo frente aos acontecimentos e seu extremo estado de conturbação mental, fizeram-no claudicar seguidas vezes na escrita, e isso transformou aquelas últimas linhas, simples e concisas, no que de melhor teve a sua obra.

 

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José Angelo Rodrigues é atuário e professor universitário de pós-graduação. Tem livros e artigos publicados na área de ciências, artes plásticas e escrita criativa, no Brasil e no exterior. Finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2016 e 2017 na categoria Contos.