“Fantasmas na praia”, conto de Camilla Feltrin

Fevereiro 22, 2018 0 By Lucas Verzola

A casa que Martina e eu alugamos era bem bonita, com duas suítes, sala grande e cozinha arejada. O terreno era repleto de plantas e flores, além de árvores e macaquinhos. Contei quatro gatos de olhos bem puxados espalhados pelo quintal, todos brancos com manchas pretas pelo corpo. O caseiro Lucas explicou que os bichos apareciam lá ocasionalmente: não eram dele e nem dos donos da casa. Como o vira-lata Julius também se dava bem com os invasores, os considerei amigáveis.

Os primeiros minutos da estadia serviram para que a gente trocasse de roupa e corresse para praia. Minha amiga e eu só voltamos quando o sol estava insuportável. Sentadas em cadeiras de palha, apreciamos o jardim e os beija-flores. Ela me falou alguma coisa sobre o trabalho. Tinha a ver com crianças, escola, ginástica rítmica, aros de basquete, raquetes e o fato da mãe dela tê-la batizado em homenagem à Martina Navratilova.

Enquanto ela continuava com as amenidades, notei que precisava passar mais filtro solar.

“Vou pegar o protetor lá no quarto. Quer alguma coisa lá de dentro?”

“Não, valeu.”

Passei no banheiro e quando cheguei no quarto tinha alguém mexendo na mochila que eu havia deixado em cima da cama. E não era Martina.

Era Oscar.

Fiquei surpresa e muito feliz. Parecia um sonho que meu namorado que havia me largado para viver no interior-sei-lá-da-onde aparecer ali, do nada.

“O que você está fazendo aqui!!!!?”, perguntei assim mesmo, cheio de exclamações.

“Eu vim pegar o protetor que você me pediu.”

“Mas eu não pedi…”

“Você de novo com isso.”

Fiquei boquiaberta. Ele estava fingindo que nada tinha acontecido anos depois de me deixar. Inclusive, o segredo para esquecê-lo foi pensar que ele tinha morrido, que era um homem sem presente nem futuro. Só passado.

“O que você está fazendo aqui? Martina abriu o portão para você?”

“Quem é Martina?”

Oscar pareceu bem confuso e eu fiquei ainda mais. Não perdi tempo pensando na lógica daquilo, apenas o abracei.

“Vamos mesmo fazer um churrasco hoje de noite?”, ele questionou enquanto um dos gatos se esfregou em mim.

Nada mais me importava além de Oscar ali na minha frente. Nem Martina, nem comida, nem o fato dele ter sumido e, pluft, estar ali sem mais nem menos. O abracei de novo. Desta vez, o segurei pelas costas e dei um beijo por cima da camiseta.

“Vamos lá fora, está muito abafado aqui, e aí a gente conversa”, disse puxando-o pelas mãos.

Na varanda, os gatos estavam nas poltronas me encarando. Fiz movimentos bruscos para que sumissem. Eles fizeram sons de bebês satânicos e, apesar da relutância, partiram num lento comboio. Sentei à espera de Oscar. Julius apareceu, abanando o rabo e dando aqueles beijos com a língua e o nariz gelado, e Martina surgiu depois com um elegante chapéu.

“Você viu quem está aí na casa?”

“Quem?”

“Oscar.”

“Meu irmão?”

“Claro que não. Meu ex-namorado. Você abriu o portão para ele?”

“Eu não.”

“Que estranho.”

Estranho mesmo. Oscar não voltou a aparecer e conclui que só uma insolação poderia explicar o nosso curto encontro. Martina e eu voltamos à praia, vimos o por do sol e jantamos pão com presunto e queijo. Enquanto comíamos, ela me falou sobre o novo emprego do marido na área de manutenção de um boliche. Fiquei muda.

Fui dormir cedo e lembro de ter acordado na madrugada ouvindo gritos horríveis. Continuei na cama pois não queria encontrar aqueles gatos e preferi ficar desconfortável debaixo dos lençóis duros, cheirando a mofo. O máximo que fiz foi torcer para que tudo estivesse bem com minha amiga, com os vizinhos e que nenhum assassino entrasse em casa. (Dias depois descobri que os berros vinham de um parque de diversões ali perto, instalado na orla da praia com brinquedos que chacoalham e dão adrenalina para adolescentes e adultos meio bobos.)

Na manhã seguinte, passei café diretamente na xícara e esquentei água para Martina fazer chá. Precisávamos despertar, tomar cerveja logo cedo daria ainda mais sono. Martina foi pegar açúcar na cozinha e Simone apareceu na minha frente, histérica, questionando porque eu havia beijado o ex-namorado dela.

“Simone, o Alex já foi namorado de todo mundo. Todas minhas amigas tiveram um relacionamento curto e irrelevante com ele. Ele não é especial para ninguém.”

“Eu odeio você, sua puta traidora.”

“Você me disse exatamente isso seis meses atrás, chega.”

“E vou dizer quantas vezes mais eu quiser. Pu-ta-tra-i-do-ra.”

“Você parece uma maluca falando assim.”

“Melhor maluca que ninfomaníaca.”

A sinopse é ruim, eu sei, não me orgulho, mas a verborragia dela me feria.

“Saiba, então, que transei com ele e com a sua irmã, mas para ela você não fica falando esses absurdos porque metade da história eu consegui esconder.”

Com um coque torto no alto da cabeça, Simone começou a chorar como uma dessas carpideiras. Ela pegou um espeto encardido de gordura que estava jogado na pia e veio em minha direção. Fui andando de costas até encostar na beira da piscina e pisar no rabo de um dos gatos, que fez um um barulho igual aos bichos de desenho animado e arranhou meu tornozelo. Engoli toda a saliva, já me preparando para o pior. Suspirei e abri os olhos: Simone havia sumido e Martina estava na minha frente.

“Só achei o adoçante.”

Bebemos nossas respectivas cafeínas e continuei reflexiva sobre tudo que havia acontecido enquanto ela contava sobre o irmão que ainda não havia se encontrado na vida e que, mesmo sem emprego nem namorada, iria ser pai. Apenas ri e lamentei. E depois fiz isso na ordem inversa.

Passei boa parte daquela manhã nadando no mar e Martina ficou estirada na canga lendo um dos livros que levei. Sempre carrego livros para praia comigo, acho que compõem bem o visual de turista, mas nunca os leio. Apenas os sujo com areia e os ensebo de protetor. Fizemos planos depois um cigarrinho. Prometi para Martina que me mudaria para Milão assim que possível e que a levaria comigo. Como gentileza e agradecimento por livrá-la de uma vidinha mais ou menos, ela garantiu que comeríamos pizza por um mês inteiro e que disputaríamos rachas de Lambretta – na hora nos pareceu factível. Voltamos para casa e ficamos a tarde toda boiando na piscina. Eu com os braços abertos, ela em cima de um colchão de ar.

Bateu a fome e me propus a fazer macarrão com molho de tomate e milho. Quando estava quase pronto, pedi para Martina pegar orégano na horta dos fundos. A pequena plantação em cima de uma telha de amianto era uma graça, ainda mais para mim que nunca tinha visto orégano de verdade.

Martina mal colocou os pés para fora da cozinha e Douglas apareceu pedindo dinheiro emprestado. Oscar, Simone e agora meu primo. Achei que estava desenvolvendo uma esquizofrenia com todos problemas pendentes da minha vida.

“Tem, tem? Preciso dar um tiro agora senão vou ficar maluco.”

“Você precisa fazer alguma coisa da sua vida. Não é legal um homem de 30 anos depender da mãe até hoje.”

“Você de novo. Todo mundo condena meu estilo de vida.”

“Não é estilo de vida. É inércia, talvez depressão, dependência química, alcoolismo… Já falei para tia que você precisa de ajuda.”

Quando disse isso, lembrei da velha encardida que me vendeu pó dias antes. Ela tinha uma aparência terrível, o rosto carcomido, as mãos esquálidas e os dentes inexistentes. Enfim… a diferença entre Douglas e eu, que começamos a usar cocaína no banheiro de um bar capenga do centro da cidade, é que eu a mantive para uso recreativo e ele começou a ser devoto dela e de todos os outros narcóticos disponíveis.

“Quem diria você, uma moralista.”

Pensei em todas as respostas polidas possíveis, optei pela falta de paciência:

“Então vai se foder, seu drogado de merda.”

E ele foi. Martina voltou com um gato debaixo do braço esquerdo e um ramalhete de orégano na mão direita. Comemos em silêncio.

Quando o sol se abrandou, nos jogamos na areia e debatemos por um bom tempo se conseguiríamos assar um peixe em folhas da bananeira no nosso penúltimo dia naquele lugar esquisito e maravilhoso.

“We can do it”, falei antes de comprarmos um linguado fresco, muito limão e ainda mais cerveja.

Foi uma aventura acender a churrasqueira. Contávamos que o caseiro estaria lá para nos ajudar, mas acabamos usando uma garrafa inteira de álcool para que o carvão pegasse fogo. Enquanto eu abanava e suava para conseguir alastrar as chamas, uma senhora apareceu.

“Eu queria uma cachacinha, a senhorita tem aí?”

“Nossa geladeira está abarrotada de cerveja.”

“Ai, menina, serve também.”

Gritei para Martina trazer mais garrafas lá de dentro, ela respondeu algo como “tá bom, já vou” e voltei a puxar assunto com a visita.

“Vocês tinham o dever de não arregaçar a perna para aquele bando.”

“Eu sei, eu sei.”

“Está todo mundo arruinado: eu, meus amigos, parentes próximos. Só andar na rua para ver cada vez mais miseráveis.”

“Ô, minha querida, não sei se você sabe: aconteceu um negocinho chamado golpe de Estado. Coup d’Etat, como dizem por aí…”

“Se não tivessem feito o jogo dos bandidos, nada daquilo teria acontecido.”

“Deixa eu te contar uma coisa…”, ela me disse acariciando um dos gatos no colo. “No presidencialismo de coalizão…”

Com a enxada usada por Lucas para carpir o terreno, Martina acertou a cabeça da visitante, que caiu de frente e quase esmagou o felino entre a barriga e o chão. Fiquei paralisada.

“Você não vai por o peixe na grelha?”

“Martina”, falei assustada, “você matou a presidenta.”

“Ex-presidente.”

“Martina!”

“O que foi?”

“Estávamos conversando!”

O barulho do mar, a uma quadra da casa, havia se transformado em um som amedrontador de vespeiro. Nada fazia sentido ali, não sabia o que era alucinação ou realidade. Entrei em casa para jogar uma água no rosto, talvez ligar para polícia.

Quando voltei para fora, mais caos. Julius estava orgulhoso de ter estraçalhado o pescoço dos quatro gatos, Lucas controlava o fogo da churrasqueira e Martina esmagava limões dentro de um copo.

“Você prefere caipirinha com cachaça ou vodca?”

“Eu só queria entender as coisas”, comentei devagar, com as mãos nas têmporas e a pressão caindo.

“Nunca ninguém vai.”

“Pode ser cachaça, então.”

 

__

Camilla Feltrin, 26, é jornalista e escritora.