Ficção com cara de biografia

Fevereiro 26, 2018 0 By André Balbo

Outros cantos, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2017, de Maria Valéria Rezende, acompanha a personagem Maria em seu caminho rumo ao povoado fictício de Olho D’Água, onde no passado fora enviada como educadora em um projeto de alfabetização do governo. No tempo presente da narrativa – todo ele passado durante o trajeto de ônibus – acompanhamos seus pensamentos, mistura de lembranças daquele sertão e de suas percepções sobre ele décadas depois.

Logo percebemos que a vivência em Olho D’Água foi marcante para Maria e que ela olha para este passado de maneira nostálgica, ressentindo-se das mudanças trazidas pelos novos tempos e sobretudo pelas tecnologias recentes da informação, que não passaram pelo seu querido sertão sem deixar marcas.

Não quero mais correria, pressa, velocidade… Ultimamente ando irritadiça e exausta, resisto, mas sou sempre arrastada pela pressa dos outros desde que a gente passou a viver, se mover, se informar, pensar e se comunicar com o máximo de velocidade possível segundo os diários e ruidosos lançamentos de novas geringonças eletrônicas, prometendo cada vez mais velocidade. Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading (…)

À medida que a narrativa avança e temos mais acesso aos pensamentos de Maria, percebemos que esta nostalgia é muito mais do que um sentimento isolado; ela constitui um modo de ver a vida e de estar no mundo, que constantemente idealiza o seu entorno e principalmente aquilo que toma como alteridade (o tal outro do título).

Aprendia eu, a cada dia, muito mais e indispensáveis saberes para a teimosa vida nos mais hostis cantos do mundo do que as letras que eu viera trazer-lhes, úteis apenas em mínimas ilhas de privilégio desigualmente espalhadas no globo terrestre.

 

(…) testemunho da disposição daquela gente em não se deixar sobrar frente às negativas da natureza, muito mais comovente para mim que o esplendor dourado da capela da mesma devoção (…)

O grande problema é que a idealização deste outro vai para muito além do ponto de vista da personagem. Ela se confunde com o ponto de vista do romance enquanto estrutura discursiva maior, e o que vemos são estratégias retórico-narrativas bastante semelhantes às do romantismo, em que prevalece uma idealização da alteridade (seja do índio, seja do sertanejo) como expediente maior do projeto ficcional.

O principal efeito para o romance é que essa projeção afasta o leitor de uma compreensão mais visceral do que é o outro (do que são Fátima, Parafuso e os outros habitantes de Olho D’Água) e do que poderia ter sido a experiência de Maria em meio à diversidade. Não à toa, embora pretensamente sensível ao diferente, a narrativa soa fria, afetivamente distante e chegamos ao final do livro com a sensação de que o contato com o outro não foi capaz de nos modificar.

O ritmo não conspira a favor do texto e apesar do romance e dos capítulos serem curtos, as passagens entre o tempo passado das lembranças e o tempo presente da viagem se alternam de maneira engessada, dando um andamento monótono e de encadeamentos previsíveis. No final das contas, o tempo presente da narrativa nunca se justifica – a vivência da personagem no agora, enquanto viaja de ônibus, não potencializa nada dentro da história, apenas servindo de pretexto para condensar as informações a que o leitor tem acesso.

Incomoda também que as memórias da narradora de seus projetos de expedição na Argélia e em outros lugares do mundo, num passado mais distante, mesclem-se às demais de maneira muito pouco orgânica, afigurando-se como recursos um tanto ingênuos de embelezar a biografia da personagem (ou seria da autora?).

Diante da fragilidade do projeto ficcional de Outros cantos, algo chama atenção.

Antes de comprar o livro de Maria Valéria, acompanhei a sua repercussão na mídia e tive a sensação de que sua biografia vinha sendo explorada um tanto além do comum.

Quero dizer: não vi uma única reportagem em que fatos da história pessoal de Maria Valéria não tenham sido excessivamente frisados, muitas vezes sob a pena de deixar o livro ou o trabalho literário em segundo plano: “Freira, escritora e feminista (…) ela já fumou maconha, lutou contra a ditadura e foi amiga de Fidel Castro”, “freira que instalou-se em povoado sertanejo nos anos 70″, que “ajudou a esconder opositores após o golpe de 1964”, que “passou por Itália, França, Argélia, EUA e México antes de voltar ao Brasil”.

Este mecanismo, além de reforçar a estratégia da indústria de explorar a figura do autor para vender livros, me parece empobrecedor para a ficção, uma vez que aspectos extrínsecos à obra são valorizados em prejuízo de suas leis internas.

Afinal, importa ou não para o livro – e é claro que essa questão pode ser expandida para pensarmos qualquer projeto literário – que a mulher que escreveu Outros cantos seja feminista, freira, ex-missionária, educadora que viajou os sertões e o mundo? Até que ponto dados biográficos podem ser tomados como atestado de qualidade do que Maria Valéria ou qualquer outro autor escreve?

Não há dúvida de que Maria Valéria Rezende tem uma bela biografia. Mas ficção e biografia, ao que se sabe, são expedientes bastante distintos. E faltou muito para a autora alcançar uma voz narrativa convincente, um estilo coeso, construir personagens com o mínimo de espessura ou até mesmo uma ambientação que ajudasse a tornar palpáveis as lembranças que a narradora emula.

Para mim, teria soado mais honesto e efetivo do ponto de vista estético se Outros cantos fosse um relato jornalístico ou autobiográfico da experiência da autora pelas suas tantas searas. Mas, como ficção, a impressão que fica é que faltou muito caminho por percorrer.

 

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Flávia Iriarte é mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. É editora da Oito e meio e fundadora do Carreira Literária, comunidade online que hoje auxilia mais de 30.000 autores do Brasil. Em 2016, foi eleita um dos 5 jovens talentos do mercado editorial brasileiro pelo Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro, promovido pelo PublishNews, com o apoio da Feira do Livro de Frankfurt e o patrocínio do Sindicato Nacional dos Editores de Livros.