Entrevista com Bernardo Ajzenberg

21/06/2018 / postado por Lucas Verzola

Bernardo Ajzenberg, autor de Gostar de Ostras (Rocco, 2017), conversou com a crítica Andressa Barichello sobre o livro, a relações da obra com seu olhar do cotidiano e planos para o futuro.

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Lavoura: Gostar de Ostras tem uma linguagem simples capaz de conduzir o leitor a sentir-se dentro dos apartamentos onde parte da história é ambientada. A sua forma de narrar tem uma especial preocupação com a entrada do leitor na história?

Bernardo Ajzenberg: Isso existe sim, mas se dá de uma forma natural. Eu mesmo preciso entrar na história para construí-la à medida que escrevo, pois não faço planos ou projetos detalhados. Não há uma regra, pelo menos para mim. No caso de Gostar de Ostras, essa conexão passou por uma linguagem mais direta, solta. E acredito que o leitor sente isso. 

O fato de ser tradutor e ter uma relação forte com a literatura francesa de alguma maneira despertou o desejo de criar dois personagens franceses ou foi determinante para caracterizá-los? 

O que pesou para isso foi o fato de eu ter morado boa parte dos últimos três anos e meio em Paris, onde o meu interesse por questões históricas relacionadas à Segunda Guerra Mundial, em especial o Holocausto, se aguçou. Ao mesmo tempo, eu queria escrever sobre o que aconteceu no Brasil dos anos 2010 a 2014, em que passamos de uma espécie de auge para uma clara desintegração. As manifestações de junho de 2013 estão no livro por causa disso, embora eu, como ficcionista, não me veja na obrigação de dar respostas, mas sim de levantar interrogações e lançar certas perplexidades em relação ao que aconteceu naquele momento. 

O livro poderia ser ambientado em uma metrópole diferente de São Paulo ou essa cidade é um personagem decisivo?

Como na maioria dos meus livros, opto por São Paulo. É a cidade onde vivo e que procuro dissecar de alguma forma, mesmo partindo da subjetividade dos personagens. Cito nomes de ruas, bairros etc. Não por acaso. Gosto de ideia de ter esse traço, digamos, realista, na minha ficção, embora ele não limite em nada, espero, os saltos provocados pelas fantasias.

Durante a escrita do livro, qual atmosfera pulsou mais: a vida interior de cada personagem ou a forma como os laços afetivos se desenvolvem a partir da singularidade?

As duas coisas estão intimamente ligadas. No fundo, as pessoas só existem quando se relacionam com as outras, de uma forma ou de outra. Assim como um livro só existe, de fato, quando chega ao leitor e  este o constrói na sua mente. De todo modo, enfatizei mais, neste livro, a questão dos laços e como eles podem pesar para mudanças inesperadas na individualidade, sempre num jogo de interpenetração com os acontecimentos mais amplos da cidade.

A ligação entre Jorge e Marcel tem mais a ver com o encantamento entre figuras muito diferentes ou será que há entre eles muito mais semelhanças do que podemos supor?

Acredito na primeira hipótese. São duas personalidades bem distintas que se cruzam por acaso e passam a se interessar uma pela outra. O Jorge opera uma mudança importante ao longo do relacionamento com o casal Durcan, em especial com Marcel. Mas este também encontra no vizinho uma forma de exercer quem sabe uma certa paternidade que não teria se manifestado antes em toda a sua já longa vida. 

Você acredita existir, de um modo geral, uma distância muito grande no diálogo entre as gerações hoje?

Difícil dizer. Minha sensação é que as distâncias diminuíram muito, talvez por força das inovações tecnológicas que “adultizam” as crianças muito cedo e “infantilizam” os adultos fortemente. Não me parece uma coisa positiva. O que o livro mostra, me parece, é que uma geração mais velha não tem necessariamente menos vivacidade que a mais nova. 

A obra percorre a questão do luto de diversas maneiras. As perdas e os ganhos individuais são de alguma forma um espelho das perdas e ganhos coletivos?

Costumo dizer que um dos meus objetivos, ao escrever, é fazer a fusão entre o individual e o coletivo, ao menos na história que estou contando. Como o indivíduo vivencia intimamente a História? Como os movimentos coletivos impactam sobre uma mente singular? O luto é um tema que faz esse movimento, uma espécie de matriz, que afeta uma pessoa e uma multidão. Há no livro, de fato, algumas mortes individuais e tragédias coletivas. Me parece que a vida é feita disso. 

Você percebe em seus contos e romances algum tema que se repete? Há algum assunto que você conscientemente deseje trabalhar na sua escrita?

Não sou o mais capacitado para responder a essa pergunta. Acho que seria objeto de uma análise crítica. Mas é claro que, como escrevo num registro mais realista e interessado na vida interior das pessoas e principalmente dentro de uma certa classe média, não tenho como escapar de questões recorrentes: perdas, religião, pressões sociais, desencantos, anseios frustrados, busca de integridade, traições… 

Quais os seus planos de trabalho para o segundo semestre de 2018? Alguma pista sobre o que os leitores podem esperar?

Comecei a escrever um novo romance, mas ele caminha lentamente. Não acredito que esteja finalizado este ano. De resto, são as traduções que, por dever de ofício, seguem em marcha acelerada, mas só os editores podem dizer quando elas serão de fato publicadas.

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