Trechos de Granulações, romance de estreia de Anna Monteiro

25/06/2018 / postado por Lucas Verzola

Narrado alternando as vozes de seus protagonistas, Granulações (Reformatório, 2018) conta a história de Pedro e Nina, um casal em crise depois de viver uma grande paixão. A intimidade, contudo, revela, pela visão de cada um, traços do outro capazes de complicar uma relação. E aquele amor simples, certeiro e apaixonado, torna-se tão complexo que aos poucos caminha rumo a uma impossibilidade.

Pedro é fotógrafo premiado e reconhecido, compulsivo, endividado. Nina é jornalista, busca o sucesso profissional, uma vida tranquila; estabilidade econômica e felicidade. Mas o que é felicidade, essa abstração? Pedro indaga, enquanto Nina se pergunta qual o sentido de sair correndo de uma vida da qual ela sempre quis.

Confira dois trechos de Granulações:

Pedro:
Uma imensidão de céu misturado ao oceano e não se percebia onde um começava e o outro terminava. Eram, céu e mar, uma só imagem, uma só força, salpicados de estrelas, uma meia lua tímida e o barulho das ondas num compasso organizado. Havia ordem no meio do caos. Eu me sentia menor que um grão de areia, deitado sob esse quadro que existia há mais de treze, quatorze, quinze bilhões de anos, quando o universo começou a se desenvolver e se expandiu, com zilhões de galáxias, estrelas, nebulosas, planetas, satélites, cometas, meteoros, números desconhecidos e absolutamente gigantescos, infinitos. Depois vieram as amebas, os plânctons, insetos, aves, répteis, anfíbios, mamíferos, ah, os mamíferos, que sempre me encantaram, e tudo surgia, como notas numa sinfonia, até chegar aos primatas. E logo, por causa de um ou dois DNAs diferentes, aparecemos nós, hominídeos, os humanos, evoluímos e atingimos o topo, onde estamos. Nós, humanos, os seres com o maior cérebro em proporção ao corpo, nós que raciocinamos, controlamos o fogo, temos a capacidade de amar e desenvolvemos o polegar opositor. Nós, humanos, com um potencial maior de dizimar tudo o que vemos pela frente, de poluir rios e mares, de derrubar árvores e fazer desertos. Nós, que espirramos agrotóxicos nas lavouras e depois comemos, queimamos e inutilizamos a terra, exploramos outros humanos iguais a nós, extinguimos animais. Nós, os criadores do conceito de raça, nós, os senhores do universo, nós, os destruidores. E eu aqui embaixo, eu, que não sou nada, nunca fui nada, menos que uma poeira, tinha certeza dessa capacidade de dar cabo de tudo tão inerente ao ser humano.

Nina:
Eu tinha uns oito, nove anos quando andei pela primeira vez na montanha russa, durante uma excursão da escola. Nós, meninas e meninos cheios de energia, aproveitamos bem o dia. O trem fantasma, o bate-bate e a roda gigante foram os favoritos. A montanha russa ficou por último. Sentei ao lado de uma monitora que acompanhava a turma. O homem do parque nos posicionou nos assentos, ajeitou a barra de segurança e ouvi um estalo quando ela se prendeu. Eu era só expectativa. O carrinho começou a subir a primeira volta, até que chegou ao pico, num ponto bem alto, de onde eu via todo o parque e os arredores, e virou num ângulo de noventa graus. Depois desceu todo o declive. E subiu novamente, fez uma curva para a direita ou para a esquerda, deu várias voltas, um looping, voltou a subir para depois despencar. Eu só via o céu muito azul passando ao meu lado, as nuvens brancas, o piso de cimento com alguns canteiros minúsculos de árvores, as carrocinhas de cachorro-quente, pipoca e algodão doce, e as pessoas pequeninas lá embaixo, tudo num borrão, um quadro pós-moderno gigantesco. Sentia a velocidade do ar no meu rosto, meus cabelos despenteados voando acima da minha cabeça, os olhos cheios d’água, minha pele gelada e suada ao mesmo tempo, meus dedos se fechando em torno da barra de ferro um pouco à minha frente. Foi um dos momentos mais detestáveis na vida e passei todo o percurso torcendo para que aquele inferno terminasse o mais rápido possível, que aquele carrinho parasse e eu saísse dali para um lugar onde pudesse ficar erguida com minhas próprias pernas, no qual eu não sentisse a vertigem insuportável. E, antes, quis tanto experimentar a sensação. Jamais andei numa montanha russa de novo. E, agora, eu me via numa montanha russa intermitente.

Aos poucos, Pedro acabava com meu ânimo. Talvez eu acalentasse uma esperança, desde o início, de que mudaria seu comportamento. Não entendo por que eu me incumbi dessa missão, nunca me dou tarefas que independem da minha capacidade, ou em que momento eu me autonomeei salvadora de Pedro, mas de alguma forma era assim que eu me comportava. Por que, então, eu não descia daquela montanha russa de uma vez por todas e seguia com os pés firmes no chão? O que me obrigava a me manter ali, ao lado dele?
__

Anna Monteiro é carioca, jornalista, formada pela Escola de Comunicação da UFRJ, com especialização em produção de TV & Cinema pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM. Participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizada por Adriana Lisboa. Granulações é seu romance de estreia.

Deixe o seu Comentário aqui!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *