Jorge reunido

Jorge reunido

dezembro 28, 2018 0 By revistalavoura

Após ler Navegação de Cabotagem, o livro de Jorge Amado com apontamentos de suas memórias, procurei alguma biografia escrita por um terceiro, para enxergar a linha cronológica que o escritor propositadamente fragmentara. Fiz a busca certo de que encontraria o volume, dado o tamanho do personagem. Afinal, se a respeito de Neruda já havia filmes inteiros no Chile, se Picasso ganhava folhetos pelo mundo acerca de sua vida, como o escritor baiano, figura comparavelmente tão global no século XX, teria a lacuna de uma boa narrativa biográfica? Não havia um livro do tamanho do personagem. Encontrei, ao menos, em uma entrevista antiga, a promessa da jornalista e historiadora baiana Joselia Aguiar em cumprir a lacuna. Concretizou-se e está para nós Jorge Amado: uma biografia (Todavia, 2018, 640 p.), a solução de uma dívida de todos nós.

A tarefa não é simples, contudo, para uma vida extensa como a do nosso mais famoso escritor do século XX. Se o livro requer tempo e algum espaço na prateleira do leitor, logo nos primeiros capítulos mostra que é, ainda, um resumo possível das peripécias de seu personagem. Resumo no sentido mesmo da possibilidade, não da diminuição. Com competência, Joselia reúne informações antes dispersas e traz a construção do autor Jorge, desde a infância na zona cacaueira, seus tempos de Academia de Rebeldes às inquietações de jovem romântico com os matizes da própria terra. Fio a fio se tece, e é uma delícia ver Jorge titubear, vagar, errar, reencontrar-se, rumo a um futuro que ele não poderia conhecer. Um dos méritos da narrativa é frisar os descaminhos do personagem, com riscos, planos feitos e desfeitos, amores eternos que se esvaem, de modo a apresentar a vida como um jogo de escolhas, não como uma determinação. Uma curiosidade, nesse sentido, é reparar que Jorge sempre vaticinava errado, ou com outro título ou com outra ideia, o próximo livro.

O estilo de Joselia Aguiar se pauta na precisão da jornalista, com agilidade, boas conexões e mesmo algumas imersões líricas, a exemplo das anotações sobre a primeira filha de Jorge, na rotina de sua doença crônica. A primeira metade do livro é, assim, uma leitura fluída, e serve como um painel da política e da literatura nacional dos anos 30 e 40, tal como uma amostragem das ações de um autor no caminho de sua popularização. A segunda metade, porém, encontra uma questão para a escolha do método narrativo: a saída do Jorge visivelmente engajado, que é deputado, que sofre exílios, que participa das bases soviéticas internacionais, que encontra mulheres, que se divorcia, para o Jorge integralmente escritor, já rompido com o partido, já casado com Zélia, com amigos fiéis e gradativos sucessos de títulos. Para além das duas fases de modus operandi político – Jorge militante do partido comunista e Jorge fora da política institucional – e literário – Jorge mais próximo do romance real-socialista e Jorge ainda mais contador das histórias da alegria popular –, há duas fases de vivência com o mundo. A primeira é possível contar externamente, cheia de ações, arcos e jornadas na luta contra regimes e na conquista dos sonhos, a segunda parte é uma incursão.

Para o Jorge Amado a partir dos 50 anos ficar mais evidente, é interessante passar da visão dos atos para a visão de seu espírito. Mas como narrar ações internas? É um desafio imenso para quem escreve biografias de escritores. Jean-Paul Sartre, um dos amigos de Jorge e divulgadores de sua obra na França, tentou realizar o feito com Jean Genet, Baudelaire e tão obsessivamente com Flaubert, que queimou dezessete anos e três volumes sem terminar sua biografia. Não seria para tanto, nem para este objetivo o livro sobre a vida de alguém, com análises psicológicas e afins, mas desejei possuir mais pistas a fim de entrever a agitação interior do baiano. Há, por exemplo, a notícia de um ponto intrigante em sua personalidade. Numa entrevista para o A Tarde, em 62, Giovanni Guimarães pergunta por “sua qualidade mais paradoxal”. Jorge responde: “Muita gente pensa que sou alegre, mas eu sou um homem triste pra burro.” (p. 411). Neruda, em viagem pela Ásia, anos antes, descrevera o companheiro como “melancólico”, e Caetano, nos anos 70, em visita pela Casa do Rio Vermelho, adjetivou o escritor de “grave”… Como seria essa combinação de alegria e de tristeza? Qual era a gravidade pessoal de alguém que realizava os seus sonhos de menino, que atingira o máximo sucesso e que vivia em sua casa-templo, dono de si?

Uma grande biografia como a de Joselia Aguiar, que a autora define como “investigação interminável”, é mesmo para nos deixar inquietos. Cumpriu o objetivo, além do documento que se torna vivo para quem queira então “conversar” com Jorge, sem mais o privilégio de sua companhia nas brisas marinhas do Rio Vermelho. Se os livros de memória de Zélia Gattai e os apontamentos do próprio Jorge são conversas boas e desprendidas, o volume de biografia então publicado é a reunião compreensiva dos seus assuntos e dos marcos da jornada desse autor.

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Saulo Dourado nasceu no sertão baiano, em 1989, e vive em Salvador. É escritor e professor de Filosofia na UNEB. Venceu os prêmios literários Ferreira de Castro e Correntes d’Escrita, para jovens autores, ambos em Portugal. Escreveu os livros de contos O autor do leão (FB Publicações, 2017) e O mar e seus descontentes (Via Litterarum, 2015), além do romance O borbulhar do gênio (Caramurê, 2018).