“O despertar do galo”, de Fernando Andrade

Janeiro 21, 2018 0 By André Balbo

Talvez ao sinal do despertar, do abrir os olhos, o galo cantando logo ao alvorecer, cisca o terreiro, indo ao galinheiro para fazer o quê? Mas logo quando se ia se ajeitando com a claridade do quarto, a cena era deslocada para Dona Isabela com as mãos firmes no pescoço de uma galinha e na outra mão uma faca. Via o lento movimento do gesto, a mão segurando o corte – O embate da lámina no pescoço da ave.

Por que galos não morrem degolados numa certa hora da manhã?

A tina cheia de sangue e no ar dançando feito uma bailarina morta, a galinha sem vida.

O galo cisma o galo cisca, onde está o galo numa hora desta?

A hora da manhã na qual o terço é visto, onde mãe e pai iniciam uma breve novena. Saio da cama com manchas de sangue nos olhos. Talvez tenha socado o olho durante a noite num movimento invonlutário. A prece do dia é antes fazer a higiene pessoal, lavar as mãos, escovar os dentes, e cortar os pelos do nariz. Ir à cozinha e ver Dona Isabela amparada com a barriga no enorme tacho sobre o fogo aventureiro. À que pequenas distâncias se cometem crimes logo no desjejum. Eu sendo abençoado pela mãe, que pergunta – Dormiste bem, filho. O pai no breviário do pouco à mesa já em contato com as obrigações do pátrio. Caras de serviçais procurando ordens já na porta do alpendre.

Hoje tem galinha à caçarola.

Não gosto muito…

Você sempre comeu…

Acho que enjoei

Dona Isabela me olhando de rabo de olho e dizendo o Galo botou despertador atrasado.

A palavra que me vem é a do padre Estevão, que diz que manhã começa na ritualização da rotina.

Imagens me vem

Batina

Sacristia

Hóstia

Tia

Pia batismal

Vou para o quarto e abro a janela para a paisagem de uma cerejeira em flor.

Desço da janela

Ali naquele lugar entre o jardim e um córrego costuma ficar em posição de buda um lagarto todo escamado, um ser entre a terra batida do jardim e a água corredeira do córrego.

Ele está lá, imóvel. Numa nota de escárnio, põe a todo momento a língua para fora. Costumo contar até cem na sua frente.

 

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Fernando Andrade, 49 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de Leitura, onde tem dois contos publicados: “Quadris” no coletânea volume 3 do Clube, e “Canteiro”, no volume 4.  É colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros. Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio: “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, e acabou de lançar “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá.