O Dia das Mulheres segundo 3 escritoras brasileiras

O Dia das Mulheres segundo 3 escritoras brasileiras

Março 8, 2019 0 By revistalavoura

A Lavoura convidou três de suas colaboradoras recentes para falarem sobre o significado desta data de luta da perspectiva da artista brasileira contemporânea.

Mari Carrara

Usar cada 8 para superar o anterior, feito um aniversário de guerra, contabilizar os nomes, no 8 seguinte quem sabe, talvez, cada vez menos mortas, mais autoras nas prateleiras.

Quantos oitos de tantos marços elas viveram, as outras escritoras, no meio dos oito filhos, os braços oito tentáculos aflitos sobre as bocas, silêncio para os maridos que escreviam, eles sim, os nomes nas capas, era março ou era qualquer outro mês de outro século e elas escrevendo para dentro, as bolhas de sabão, de sopa, a arte do cuidado. E depois delas as outras escritoras ainda agora nos trens, e o ônibus, mais oito horas e a volta, o fim de noite, escrevendo para dentro e também elas as bolhas de sabão, de sopa, a arte que ninguém lê. Dizer bem alto um poema no microfone e depois lembrar que nos últimos oito minutos mataram tantas mulheres, pensar se ainda vale a pena um poema, sempre vale. Escrever mais um livro, que também não salva, mas vale a pena, a arte que ninguém lê. Escrever as bolhas das outras mulheres, o sabão, a sopa, as dores. Pensar se estamos morrendo menos do que no último 8 de março, morrendo menos e escrevendo mais. Todo ano a insuportável conta de tudo que perdemos. Usar cada 8 para superar o anterior, feito um aniversário de guerra, contabilizar os nomes, no 8 seguinte quem sabe, talvez, cada vez menos mortas, mais autoras nas prateleiras. Neste ano que começa quantas serão histórias vivas, quantos vão nos ler em vez de nos matar.


Viviane Nogueira

Penso que o dia 8 de março é para nós, mulheres que produzimos e pensamos a literatura, um dia para se lembrar desta tarefa circunscrita que não devemos rejeitar com nenhum floreio, a tarefa de vazarmos nossa voz pela máscara de silêncio (…)

Sento-me à mesa com bell hooks, com Djamila Ribeiro, com Lubi Prates, com Lélia Gonzalez, com Conceição Evaristo, com Lívia Natália, com Sueli Carneiro, com Cidinha da Silva. Penso no que significa receber um convite para falar da importância do dia 8 de março na perspetiva da mulher que produz e pensa a literatura hoje no Brasil. Primeiro, quero correr e me esconder debaixo da cama, não é fácil, mas logo aceito às pressas o convite, aceito a solicitação da presença, a convocação para a fala. O dia internacional (das lutas) da(s) mulher(es) diz exatamente disso, diz do convite. Da necessidade do convite para as diferentes falas das mais diferentes mulheres, diz do convite para a escuta das tantas falas (já vivas, caminhantes, ou ainda presas debaixo das línguas) das mais diferentes mulheres. É triste pensar que frente ao convite tantas vezes queiramos correr para debaixo da cama, ainda que seja plausível a dificuldade em articular aquilo que nos importa, quando esta importância é sistematicamente narrada às avessas, já que a fala da mulher é tantas vezes narrada como a fala doméstica, a fala de gênero, a fala da especificidade, nunca a fala do político. Penso que o dia 8 de março é para nós, mulheres que produzimos e pensamos a literatura, um dia para se lembrar desta tarefa circunscrita que não devemos rejeitar com nenhum floreio, a tarefa de vazarmos nossa voz pela máscara de silêncio, a tarefa do escancaramento da desigualdade através do discurso, e principalmente a tarefa da construção de histórias múltiplas.


Pilar Bu

A literatura precisa ser um lugar de acolhimento e escuta, precisa visibilizar as múltiplas vozes, precisa pautar gênero, raça, sexualidade e classe.

É triste que ainda precisemos de um dia para lembrar a luta histórica de mulheres por direitos e respeito, mas precisamos. Os números registrados de casos de feminicídio e violência de gênero são alarmantes, e nem acabou o primeiro trimestre. Por isso, 8 de março é dia de luta, de reflexão. Eu sempre penso nas incansáveis Irmãs Mirabal. Dia de agradecer a quem está ao nosso lado e às que vieram antes de nós para que possamos existir. É preciso recontar as nossas histórias e visibilizar as mulheres quilombolas, as indígenas, as mulheres pobres que lutam diariamente. É preciso exaltar escritoras como Maria Firmina dos Reis, Emília Freitas, Carolina Maria de Jesus, Eliane Potiguara, Gioconda Belli, Angela Davis, Conceição Evaristo. É preciso avançar mais, pautar o discurso o ano todo, entender que não queremos flores, queremos ser lidas. Escrevi o Ultraviolenta porque estava cansada de tanta violência contra o meu corpo e a minha subjetividade e entendi que acontecia a mesma coisa com muitas de nós. Escrevi o Bruxisma porque quero muito viver, porque é preciso lutar juntas, construir juntas, entrelaçar nossas mãos e criar redes, afetos e não abismos. Ainda somos menos lidas, ainda somos menos publicadas, ainda ocupamos menos espaços e é preciso deslocar o olhar. A literatura precisa ser um lugar de acolhimento e escuta, precisa visibilizar as múltiplas vozes, precisa pautar gênero, raça, sexualidade e classe. É preciso desconstruir padrões e preconceitos para avançarmos. É preciso responder ao que nos violenta.