Oito poemas de Matheus Guménin Barreto

23/05/2018 / postado por Arthur Lungov

O Que Vale Um Poema

O que vale um poema

menos que uma greve menos

que o operário menos

do que um grito menos

do que a fala menos

do que um braço menos

que um poema vale um poema bem menos

mais vale um cão vivo

e (quem sabe?) uma república.

7-4-2018, no dia de mais um dos golpes

Manuelina

Pastam na páscoa as nuvenzinhas brancas

de há muito sopradas

da borda do tempo sopradas

limpas ainda de tempo e outras poeiras

limpas nuvenzinhas brandas

desavisadas ainda da faca e do altar

limpas nuvenzinhas brandas

pastam dominicais.

 

Sem Título

Tenso sobre as patas

aguardo

aguardo sobre as patas tenso

e escuto quase

nos testículos

a maquinação de sonho, carne e zênites.

 

Sem Título

Aquilo que me sou não me é nunca.

Pensando o que serei no escasso espaço

de mim, não sei se penso e sou aquilo

ou se, pensando, passa o tempo e passo

 

– se passo e já não sou o que pensara,

nem o que penso agora e que já passa.

Não sei se algum momento embosco aquele

que vejo ou se descubro-me sua caça.

 

Desassossego

b)

Dedos que aquecem-se à chama

morna da sarça dos dias,

confusos de si e da chama.

Confusos do que os chama

– que deus ‘inda os chamaria?

Nenhum. E arde o tempo em frente

e ardendo forma-se sempre

da parte de si que ardia.

 

 

O Jovem Recebia Tudo o Que Quisesse Levar

Este era o prazo para o tratamento de beleza: seis meses à base de óleo de mirra e outros seis meses com vários bálsamos e cremes. Quando chegava o tempo de apresentar-se ao rei, a jovem recebia tudo o que quisesse levar do harém para o palácio real.” – Ester 2:12-13

A mirra que passa da mão do amado à m

ão de seu amado passa

limpa a mirra limpa e limpo o amor

limpos os amados de carne apont

ada apontada carne dos amados

limpo o morno breu

limpo o morno breu

onde cartografam o corpo um do outro.

O Amado, Morno, À Meia Luz.

O amado, morno, à meia-luz

febril, que toca o amado ereto;

aflito, esquiva-se da luz

o amado, morno, à meia-luz,

febris os dois, febris e nus.

Aflitos – se são descobertos

o amado, morno, à meia-luz

febril e o seu amado ereto!

25-3-2018

 

Sem Título

Fechada na boca a língua tece futuros

antes de o serem

fechada na boca a língua arma manhãs e anoiteceres

fechada na boca a língua trama

seta e

unguento

ao morno corpo teu

pré-cinzas

– fechados na boca a língua

e seu planisfério celeste em+me

chamas.

__

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá/MT, é pós-graduando da USP, e estudou também na U. de Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. É autor dos livros de poemas A Máquina de carregar nadas (2017, 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, no prelo). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É editor do site cultural Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Sorbonne.

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