“Pêndulo”, conto de Bruno Mendonça

“Pêndulo”, conto de Bruno Mendonça

dezembro 14, 2018 0 By revistalavoura

o conto integra o livro O cárcere de Newton e outros contos,
publicado pela Aquarela Brasileira neste ano

 

Decifrei o enigma de Chuang-Tzú. Não por mérito próprio, ocorreu-me assim de repente, como se tocado pela graça divina. Sou professor de História dos alunos do secundário. Vivo numa pequena cidade, a oeste da metrópole paulista, no ano de mil novecentos e setenta e nove. Tenho esposa e filhos, levo uma vida pacata, entre as aulas e meus deveres de marido e pai. Durmo cedo e quando acordo, não retorno a esta existência.

Amanheço do outro lado.

Deveria dizer: anoiteço do outro lado, porque acordo montado num galho, no momento em que o amarelo se transforma em laranja vermelho azul-escuro e negro, tudo numa sucessão que eu contemplo com olhos escancarados. Enxergo melhor quando a noite cai inteira. A savana não tem mistério que não possa penetrar. Envolto nos ruídos da escuridão, apuro os ouvidos, lanço o espectro do meu olfato sobre o topo das árvores, desço ao mais rasteiro ser vivo, procurando instintivamente aquele que me receia. Nas primeiras brumas do despertar, lembro-me perfeitamente do que fiz no paralelo de mim mesmo. Ou seja, nunca sonho. Nenhuma confusão onírica me serve como objeto de interpretações. Estou sempre acordado, aqui ou lá.

Lá tentei dizer a uns tantos sábios que minha outra existência era a segunda face da moeda, como a deles também deveria sê-lo, mas vi que tomaram o que falava por uma brincadeira, mesmo que tenha afirmado, com o ar mais sério do mundo: aconteceu-me algo e desde então vivo minhas duas vidas em estado de consciência. Nada mais me vem confusamente em sonhos, de modo que hoje sei ser o sonho nada mais do que uma mistura de lembranças. Sou dois e sei-o. Ao verem que tinha um ar inquieto, perguntaram-me se não estava doente: vá ao médico, você está pálido. Um deles disse-me: seus olhos estão inchados, talvez seja um problema de vista.

Um problema de vista! Ninguém enxerga melhor do que eu quando me encontro aqui. Sinto, além disto, as vibrações de todo vicejar animal. Respiro o ar perfumado de existências ancestrais, enquanto as árvores se inclinam sob uma brisa que vem do sul. Não me movo a maior parte do tempo, mas esta imobilidade é tão hipnotizante que quase adormeço. Não fosse aquele instante de explosão em que mergulho, como se fora o clique de um gatilho, um disparo no escuro, sentindo a tempestade sob minhas asas rijas; não fosse a pequena ratazana que arranco ao solo sem que sequer tenha me visto chegar; não fosse o gosto delicioso de sua carne tenra e quente, viva de sangue que me desce goela abaixo; não fosse tudo isto, ficaria imóvel até o fim da vida – se fim houver.

É verdade, às vezes há momentos de puro terror, como no dia em que a montanha parecia ter se deslocado em minha direção, lenta e ameaçadora, e tive que fazer um salto para o alto, metralhando as asas em desespero para não ser engolido. De um outro topo de árvore, a salvo, vi o monstro, uma pesada massa ereta de escamas, dentes afiados, maiores do que minha estatura de ave. Seu bote falhara, e eu, por muito pouco, não viro refeição de dinossauro.

No começo me incomodava a descrença dos amigos, a suspeição de loucura dos familiares. Vi que não os convenceria, então me calei. Passei a frequentar a biblioteca municipal em busca de respostas, mas, para minha surpresa, vi-me consultando enciclopédias sobre pré-história. Reconheci ali tantos animais que observava noite adentro que consegui, por acúmulo e comparações, descobrir exatamente em que época do tempo me encontrava do lado selvagem.

Fiz a viagem inúmeras vezes, entre o conhecimento e o conhecer. Pus-me a escrever, sem que ninguém soubesse, a obra definitiva, retificadora dos equívocos cometidos no estudo das espécies. Cansava-me bastante esta atividade, que cada vez mais me consumia o tempo. Se ao menos pudesse dormir! Quando cochilava, os olhos de coruja ardiam na noite paralela, imediatamente vigilantes.

Perdi tudo: emprego, amigos. Por compaixão, a mulher não me mandou para o hospício, onde achava que eu deveria estar. Deixou-me com meus estudos, “que não faziam mal a ninguém”, no quarto empoeirado dos fundos da casa. Algumas pessoas – desconfio que médicos – vinham me visitar a intervalos regulares. Conversavam enquanto eu me aprofundava no errôneo detalhe de um livro em que se atribuía cauda a um exemplar que não a possuía. Passava as anotações para a obra, frenético, até o momento em que me gritavam aos ouvidos se ouvia o que estavam dizendo.

Num dia em que saía da biblioteca, exausto, esperei, no meio da madrugada, pelo ônibus que se recusava a chegar. Do alto do galho, senti a presença familiar e ameaçadora. O bote daria certo dessa vez: senti num espasmo os ossos esmagados, o cheiro das penas ensanguentadas, uma dor pontiaguda no centro do peito, como se tivesse o coração comprimido por um alicate. O ruído dos freios arrastou-se a vinte metros de mim. Alguns passageiros desceram e viram-me desconjuntado e inerte no asfalto. Minha obra voava pelo céu da noite, milhares e milhares de folhas de papel refletindo nos ares a cor branca dos postes de luz. Acho sinceramente que fui o primeiro a ver como se perdem nossas duas vidas num gesto concomitante, duplo, do destino.

Agora que detenho este segredo, só me resta saber quem é esta voz que se enuncia – e quem, evidentemente, a transcreve para o estranho papel iluminado.

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Bruno Mendonça (Recife, 1979) é escritor, autor de O cárcere de Newton e outros contos (Aquarela Brasileira, 2018), da coletânea de contos Trôpegos visionários e do romance Liberdade, ambos lançados pela editora Kazuá. É doutorando em Línguas Modernas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É também colunista e curador da Revista Philos.