“Permita-me!”, conto de Samir de Oliveira Ramos

12/01/2018 / postado por André Balbo

Vê! Tua imagem no espelho nem parece a daquela menina ingênua de treze anos que perdeu a virgindade no assento de um trator em movimento, no meio de um vasto campo de soja.

Acabas de domar, com as chapinhas de porcelana, os mais rebeldes cachos da cidade, deixando-os lisos como uma gueixa, e já tua mãe anuncia a chegada da tua melhor amiga, Anita Becker.

Anita, ao adentrar teu bunker à prova de hecatombes nucleares, te beija e se joga na tua cama como se fosse dela, enquanto experimentas uns brincos e a observas pelo reflexo do espelho. Ambas parecem continuar um diálogo interrompido apenas há alguns segundos.

Eu gostava muito do Leozinho, dizes, entortando o pescoço para o lado e tentando colocar o brinco na tarraxa, com as duas mãos.

Tua amiga Anita Becker, corroendo-se de curiosidade, te pergunta se vocês perderam a virgindade juntos e tu bates o pé que sim. Ela parece não acreditar e tu pareces não ligar para isso. Mas o pior ainda estava por vir, arrematas.

Como assim? Essa história de amor vai terminar em tragédia?, pergunta Anita Becker aflita, escolhendo a unha que iria roer e virando o corpo para o teto. Cena digna de seriado: tu, falando ao espelho e tua melhor amiga ao teto.

Ele me traiu. Primeiro com cabras, depois com porcas e finalmente com Lídia, a filha do caseiro da fazenda dele.

Como você soube disso?, pergunta Anita. Com paciência monástica, explicaste a tua melhor amiga que o próprio Léo confessou-te seu delito. Entre juras de amor e lágrimas, afirmou que aquele primeiro coito ao ritmo do motor agrícola incendiou suas entranhas, suas partes baixas, e agora ele próprio sentia-se como um trator, capaz de roçar campos e campos de pelos pubianos, atingindo suas raízes mais profundas. Mas, na escassez destes — e negando-se à vergonha de copular com o orifício de um cupinzeiro —, sua única saída, no início, foram as montas bizarras.

Então, tua amiga, destruída, começou a contar sobre dois relacionamentos em que ela tinha certeza de ter sido traída. Deixaste-a falar por um tempo, sem interrompê-la, e depois retomaste as rédeas da conversa, já com os brincos posicionados e o batom aplicado com sensualidade sobre os lábios.

Anita Becker ia questionar-te sobre Lídia, quando então explicaste como agiste com o rapazote que acreditavas amar. Conversei com Leozinho sobre nossas famílias e o quanto elas eram perfeitas para nós. Conversei também que ele não devia me trair, nem com animais e nem com a filha do caseiro. Meio gaguejando e olhando para baixo, meu amado confirmou sua fraqueza e disse não saber se reunia forças psíquicas para resistir às tentações campestres, humanas ou não.

Tomando-o por doente — e, claro, possuída de ciúmes —, invadiste como uma roçadeira a oficina materna, à cata de tesoura, régua, alfinetes e tecidos, e só saíste de lá quando conseguiste coser, à mão, uma “ceroula reforçada” para teu amado, feita de diversas camadas de tecido grosso e dobrado. Imaginavas que a rude peça, feita com tamanho carinho, ao tolher seus movimentos e expansões, iria ajudá-lo a se livrar do péssimo hábito de trair-te, uma vez que teu coração batia por ele, e somente por ele, a cada segundo.

Para tudo!, exclamou a representante dos Becker. Você colocou um cinto de castidade no seu namorado?

Respondeste, meio sem jeito, que não tinha sido bem assim. Mas sabes que foi, principalmente quando relataste — enquanto deslizavas, com os braços levantados, para dentro do vestido de festa — que, diante da ineficácia da apertada gaiola têxtil, medidas mais drásticas tiveram que ser tomadas. Sim, mesmo com a peça incômoda, Leozinho tinha se deitado com Lídia mais uma vez e matado, contra o corpo, algumas galinhas.

Deus meu, estou passada! Que medidas foram essas, amiga?, balbuciou Anita Becker, abraçando e mordendo o travesseiro.

Leozinho repetiu-se ao tentar justificar que depois da primeira vez contigo, em tudo via sexo. Era algo incontrolável. Estava como que enfeitiçado. Dizia que seus olhos estavam encobertos pelo véu da luxúria; para onde olhava, só via obscenidades.

A tudo ouvias, mas estavas decidida a tomar providências.

Numa tarde, fizeste-o subir no trator e o vestiste pessoalmente, dando alguns pontos de costura ao redor da cintura, já que cadeados eram raridade naquele fim de mundo.

Como assim, pontos? — exclamou mais uma vez tua melhor amiga, ajudando com o zíper do vestido, enquanto te encarava com os olhos arregalados, por cima do teu ombro direito.

Isso, uns pontinhos de costura, juntando tecido e pele da cintura e virilha, para o meu passarinho não fugir mais. Doeu um pouquinho, mas as promessas que eu lhe fiz ao ouvido fizeram-no esquecer qualquer quadrúpede ou sirigaita, resistindo às agulhadas como um verdadeiro príncipe. O que os homens não fazem pela promessa de um bom sexo selvagem?

E você cumpriu as promessas?, perguntou, curiosa, Anita Becker, te pegando pelos ombros e te rodando sobre os calcanhares, até ficares de frente para ela.

Saíste do quarto despedindo-te, não sem antes dizer que só tinhas treze anos na época e que aquela era uma história muito antiga. Também disseste que estavas atrasada, mas Anita Becker prometeu aos céus que iria te lembrar de terminar aquela conversa, no que assentiste sem te alterares.

O motivo de tanta beleza, perfume e pressa era o aguardado encontro com Rodrigo Pacha, teu atual namorado. Vocês se formaram na mesma faculdade em Porto Alegre — tu em agronomia e ele em veterinária —, mas só se aproximaram um mês após o término do curso. Naquela noite iriam a um restaurante chique e depois dormiriam juntos pela primeira vez.

O jantar foi divino, embalado por música diáfana e pratos delicados, equilibrados por vinhos de boa safra, com buquês inesquecíveis. Rodrigo Pacha sabia como tratar uma mulher: sem rodeios desnecessários, mas com enigmas divertidos. Seus olhos eram luminosos e seu cheiro evocava galopes à beira-mar. O tom de sua voz, quando sussurrava bobagens no teu ouvido, fazia eriçar todos os pelos do teu corpo, já rendido por completo a seus encantos.

Durante o trajeto até o motel, Rodrigo Pacha explodia em encantos e delicadezas, fazendo questão de te beijar a cada sinal vermelho em que era obrigado a parar.

Após as preliminares sem pressa, ainda sentados na cama, Rodrigo Pacha começa a despir-te lentamente, desvencilhando-te de bijuterias e meias, enquanto recita versos de Neruda a cada peça que joga no chão. Queria-te completamente nua.

Por fim, após descer o zíper do vestido e retirar com carinho teus seios do sutiã, abraçando-te pelas costas e beijando tua nuca, Rodrigo Pacha te deita com um beijo, esticada sobre os lençóis, de frente para ele. Então levanta lentamente teu vestido, protagonizando o jogo de luz e sombra que se projeta nas paredes do quarto. Fica alguns segundos admirando tuas curvas na penumbra até começar a beijar teu ventre, quando então fica estarrecido, ao se deparar com os queloides protuberantes que emolduram tua calcinha de lona, costurada na carne.

— O que é isso? Que loucura é essa? — grita assustado Rodrigo Pacha, saltando da cama e acendendo a luz.

— Você me quer, Rodrigo Pacha? Você realmente me deseja? — perguntas chorando e com voz de garota mimada, estendendo os braços na direção do mancebo assustado.

— E que voz é essa? Não estou mais reconhecendo você.

— Eu posso ser sua, Rodrigo Pacha. Mas vai ter que pedir permissão pro Leozinho. Posso ligar pro Leozinho, Rodrigo Pacha?

— Quem é Leozinho? Não conheço nenhum Leozinho.

Enquanto o romântico desesperado tenta concatenar as ideias, tu pegas o celular e fazes uma videoconferência.

— Leozinho, oi Leozinho. Tô aqui no motel com o meu namorado. Tá me vendo, Leozinho? Eu tô te vendo. Ele quer falar contigo, Leozinho. Quer pedir tua permissão, como os outros. Você já sabe, o nome dele é Rodrigo. Seja duro, não me entregue por pouco, meu amor. Dificulte as coisas.

Então passas o celular para teu pretendente, com a frente voltada para ele, para que veja e seja visto.

Rodrigo Pacha, ansiando por respostas, toma o celular das tuas mãos e repara bem a pessoa em close na tela.

 — Pensei que fosse falar com o tal Leozinho. Quem é essa pessoa no celular? Você não disse que era o Leozinho?

 Enquanto o reprodutor dos Pacha observa o aparelho, tu te livras do vestido e vais rápida ao encontro da bolsa, voltando de lá com linha, agulha e uma peça de roupa estranha, arcaica, tecida em lona e couro.

Silêncio no quarto de motel.

A tua mão estendida com os apetrechos de costura confronta-o. A peça de roupa, íntima e intimidadora, bruta, violenta, a poucos centímetros dele, a poucos centímetros da tua, causa-lhe horror.

Sim, Rodrigo Pacha precisa de permissão. E para consumar o ato, Rodrigo Pacha precisa de decisão. Não é fácil. Rodrigo Pacha está zonzo, assustado. Tua presença quase nua, maravilhosa, costurada e proibida, faz a imaginação dele voar. O que fazer? Uma onda de calafrios varre seu corpo, deixando-o louco, trêmulo, como um animal acuado, inebriado pelo cio. Deseja permanecer livre, mas se sente atraído pela possibilidade de cavalgar o inacessível, ser prisioneiro do amor, entregar seu corpo ao cativeiro de delícias, submissão e dor. Instintos que nunca imaginou sentir parecem agora inundar sua corrente sanguínea, sua razão.

Enquanto isso, alguém está olhando para ele, estudando-lhe as mínimas reações, encarando-o face a face na tela iluminada, aproximando-se do seu rosto atordoado. Uma figura ambígua, híbrida, ora homem, ora mulher. Alguém se transmutando diante dos olhos, dos preconceitos e das dúvidas de Rodrigo Pacha.

— Afinal, quem é você? — pergunta ele para o rosto no celular.

— Meu nome é Anita Becker.

 

* “Permita-me!” faz parte do livro de estreia do autor.

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Samir de Oliveira Ramos nasceu em Fortaleza, mas passou a infância e a juventude em São Luís do Maranhão. Completou seus estudos em engenharia no Rio de Janeiro, onde vive com a família. Contribui com alguns sites e blogs na internet. Histórias rápidas para dias acelerados (Oito e meio, 2017) é o seu livro de estreia.

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