“Pudim de laranja”, conto de Paula Giannini

08/12/2017 / postado por André Balbo

Ingredientes

Pudim

1 litro de suco de laranja

Maisena – Para cada copo de suco 2 colheres rasas (de sopa)

Creme

4 ovos

4 colheres de açúcar (sopa)

1 litro de leite

Inquietavam-se.

Não a inquietude da alma, aquela que perturba e que nos lança a todos em terríveis devaneios. Não. Tampouco era aquela, a que queima o espírito, a do medo do tempo que aos poucos se esvai. Ou a do receio da morte da consciência, a do medo do nada. Não. Nada disso lhes tirava o sono.

Angustiavam-se.

Muito.

E não por sua condição de miséria ou da mais completa privação das coisas a que eram impostos todos os dias. Não. E muito embora sim, fossem pobres, paupérrimos, desprovidos de toda e qualquer possibilidade de emergir para um mundo de dignidade ou para aquilo a que se poderia chamar de a-utópica-justiça-social, ainda assim, não era isso, absolutamente, que os consumia. Não.

Eram destituídos de tudo.

De sapatos, agasalhos, escovas de dente, cadeiras, camas. Não possuíam esgoto, eletricidade, talheres, ou um lar com cômodos onde os pais, quando estes ainda estavam por lá, pudessem desfrutar de um minuto de privacidade sem que a quase dezena de filhos estivesse olhando, chorando ou berrando com suas imensas bocas escancaradas, buracos negros tentando sugar o leite do mundo. Vorazes gafanhotos, empurravam-se entre si, devorando tudo e mastigando-se a si mesmos.

Sangravam.

E na escuridão daquela agonia coçavam-se, arranhando a própria pele a ponto de ferir antigas escaras há pouco cicatrizadas. E com dentes afiados arrancavam pedaços dos trapos que lhes cobriam o corpo, ou parte dele, na tentativa de se livrar dos piolhos, e das pulgas, e daquilo que também, como eles, vivia para um único e exclusivo fim. O de devorar.

E se irritavam com tudo o quanto lhes contrariasse o impulso primal de ver satisfeito cada instinto. Cada necessidade básica. E respiravam olhando para o nada, quase como zumbis, pequenas feras com sua insaciável necessidade de comer, e de beber, e de suar, e de urinar. E de exalar seus gases, arrotos. E depois procurar por seus cheiros, farejando às gargalhadas. Guinchando. E caíam no chão, rolando como se outro que não eles mesmos houvesse realizado o grande feito de se peidar.  E defecar.

E foi quando a moça do conselho tutelar, com a fala macia, quase histriônica e difícil, lhes invadiu o pequeno universo, que Anita, quinze anos, a responsável por toda aquela prole desde os seis, precisou sair de sua casa.

Preparo do Pudim

Misture o suco de laranja com a maisena em uma panela e deixe ferver até engrossar. Coloque em um pirex e deixe esfriar, na geladeira.

A escola ficava longe, seria preciso pegar ônibus, calçar sapatos apertados, um diferente do outro, usar o vestido que há anos já não cabia, puído, apertando as axilas a ponto de estourar a costura se se rasgar. E levando os papéis dos irmãos, entregar ao diretor, que lhe daria algo que a mulher do governo não explicara bem. Acompanhara aquilo que ela dissera, até o momento do “boa tarde”. Depois, seus ouvidos desacostumados aquele palavreado, foram capturando informações soltas. Informações desconexas que ela tentava apreender em um quebra-cabeça inusitado e confuso. Escola, guarda, matrícula, vaga, documentos, conselho tutelar.

E partiu cedo, com as certidões dos irmãos amarradas ao corpo em um saco plástico sob o vestido. O hábito de andar olhando sempre para o chão, adquirira muito pequena, quando os pais ainda não haviam desaparecido. Aprendeu com eles a viver procurando. Nos bueiros, próximo ao meio-fio, sempre poderia haver algo, moedas, pequenos objetos perdidos, com sorte até uma carteira, algumas notas. Uma latinha com restos de refrigerante.

Entrou no ônibus. Os trocados deixados junto ao documento que deveria entregar, deveriam ser suficientes para ida e volta. Não sabia. E entregou todas as moedas ao cobrador. E surpreendeu-se ao receber, de volta, a metade das moedas. Não sabia nada disso de contas, valores, troco. Caminhos. Não sabia nada. E seu pequeno vocabulário, de menina de cinco anos, estagnara no tempo, assim como o tatibitate próprio da época em que se viu só, junto de outras oito crianças e alguns gatos.

No papel, o mapa tentava ilustrar o caminho. Passaria por um conjunto habitacional, depois por um posto de gasolina, seguido de um estacionamento, um postinho de saúde e uma galeria, que não fazia ideia do que era. Precisaria confiar no cobrador que lhe prometera apontar o local onde deveria descer. Sentia-se estranha. Desconfortável.  Estava assustada, extasiada, e de olhos arregalados, com o nariz colado ao vidro, tentava identificar os locais apontados no desenho. Estava apavorada com a ideia de não saber como chegar ao seu destino. E o pior, não fazia a menor ideia de como conseguiria voltar.

O ônibus finalmente parou. Ponto final. A menina deveria descer ali. Caminhar duas quadras, virar à esquerda, depois à direita e lá estaria ela. A escola. Franzia o cenho, tentando memorizar o que o cobrador dizia. Se não conseguisse, poderia perguntar a alguém mais à frente. Todos conheciam o centro educacional por ali.

E foi quando o trocador estendeu a mão a fim de se despedir que, desesperada com o gesto, a menina fez aquilo. Estava totalmente desacostumada ao toque humano de convencional cordialidade e só por isso fez o que fez. Em um salto, as unhas nunca cortadas, crispadas em forma de garras, agarraram-se ao braço do rapaz. E sua boca, que até então só se abrira para balbuciar onomatopaicos sons indicativos de seu entendimento ou não do caminho, se escancarou para emitir a voz que acreditava ser o ruído indicativo de que não entendera o motivo de ser tocada.

Anita miou.

Miou.

Não um som delicado ou um tipo de ronronar. Não. Tampouco uma palavra lânguida assemelhada à voz de um gato. De modo algum. Anita replicara aquilo que aprendera com os únicos seres vivos capazes de lhe dar algum tipo de afeto. Os gatos. E berrou seu miado à semelhança da felina que, em noites de lua cheia, repele o gato que investe em sua direção.

E caminhou rumo à escola. O peito arfando. Os pés doendo. A cabeça latejando. O suor escorrendo como um caldo marrom, manchando ainda mais o vestido que nem de longe lembrava a cor que um dia tivera.

Não teve dificuldades em encontrar a escola. O imenso portão alaranjado, típico do zircão que se passa em algo que teima em ser carcomido pela ferrugem, destoava do cinza de todo o resto da paisagem. O local da escola estava longe de ser como o de sua casa. Ali os barracos não eram feitos apenas de papelão e os sacos de lixo, rasgados, denunciavam que um dia foram acondicionados a fim de que alguém os viesse recolher. Por ali, certamente passava o lixeiro. Não sempre, mas passava. O cheiro também era outro. Não era bom. Apenas outro.

Tocou a campainha. A mulher com avental e luvas não fez questão de sorrir, e apontou a sala da direção sem a necessidade de toques cordiais. Tampouco trocaram palavra. Anita apenas estendeu a carta e a servente, acostumada talvez à eterna burocracia de matrículas e ao ir e vir ininterrupto das muitas centenas de alunos, limitou-se a um meio gesto impaciente. Quase enojado. A menina fedia mais que o habitual.

– As aulas começam no dia 15. Dia 15, entendeu? Você vai precisar raspar o cabelo de todos. Os piolhos… São muitas crianças. – Era diretora. Não diretor, como recomendara a moça do governo. Falava rápido e sem erguer a vista nunca.

Saiu da sala ainda mais confusa.

Essas coisas de uniforme, horário, presença, caderno, professores, classe especial, atraso no aprendizado, síndrome, eram um mistério ainda maior. Caminhou até o local onde julgava ser a saída. Os olhos baixos. Dessa vez não tanto pelo costume. Mas uma sentença que lhe parecia algo terrível, martelava seu o juízo.

Lar de acolhimento.

Sim.

Tinha um irmão mais velho.

Sim.

Ele, assim como os outros jamais aprendera a falar.

Não.

Eles não eram mudos.

Nem surdos.

Não.

Ela não sabia o motivo.

A única coisa que entendia, era que aos seis anos havia sido deixada só. E com oito irmãos que não conseguiam aprender coisa alguma. Nada. Não sabiam ir ao banheiro. Tampouco sabiam ajudar com as coisas em casa.

E não.

Nenhum deles sabia falar.

Preparo do Creme

Em uma panela coloque o leite para aquecer.
Em uma tigela, separe gemas e claras.
Bata as gemas acrescentando o açúcar até formar uma gemada cremosa.
Despeje a gemada no leite quente e mexa.
Pingue umas gotinhas de baunilha a gosto.

Inquietava-se.

Anita angustiava-se como nunca antes. Sentia-se desorientada, como se assim não houvesse sido durante toda sua vida. Andava pelo pátio como um rato encurralado em busca do primeiro buraco para se meter.

Jamais pensara em sua situação.

Na dos irmãos.

Jamais imaginara que a deficiência dos irmãos pudesse ser mais que consequência da privação em que viviam.

Anita existia apenas, em uma sucessão de dias dentro dos quais só o que importava era a urgência da sobrevivência imediata e constante.

Lembrava-se de quando os pais desapareceram. A memória dava voltas assimétricas. Lembrava de esperar. Não sabia quantos dias ficara lá, ao lado do carrinho de catar papel, segurando a mão do irmão mais velho para que ele não fugisse. Na época ele ainda conseguia entender algumas ordens. Depois lembrava de ter chegado em casa. E do cheiro de xixi de gato que invadiu suas narinas. E do choro dos outros, quase em uníssono. E da fome. E do bebê sugando a própria mão à procura de um leite que não vinha. Lembrava da vizinha. E de sua expressão de medo ao lhe entregar algumas sobras de comida. Também ela, vizinha, tinha muito com que se angustiar.

O som ritmado como o de uma matraca resgatou Anita de sua inquietude.

E foi nesse instante que se deu:

Um acontecimento único. Um desses eventos que só ocorrem uma vez e não mais. Só uma. Uma única e rápida vez, ao menos na vida de uma pessoa como Anita.

Rolando na direção de seus pés, uma laranja certeira veio vindo, vindo e parou. Perfeita, reluzente, convidativa e suculenta laranja a rolar inesperada, como se o único objetivo de sua existência fosse o de chegar até os pés daquela criatura humana.

Em um impulso imediato, desses que só quem conhece a privação da fome pode de fato entender. Anita agarrou a fruta, firme, com as duas mãos, e já ia lhe cravando os dentes, não fosse o pulso firme que a interrompeu.

Preparo do Creme (continuação)

Bata as claras em neve.
Retire a panela do fogo e incorpore as claras batidas.
Despeje sobre o pudim e devolva-o à geladeira.

Seguiu a mulher até a cantina. Uma imensa sala com balcão no meio, coberta de azulejos brancos. Observou o rejunte seboso, as bordas da cerâmica rachadas. Quebradas. E deixou-se ficar ali, parada, tonta, inebriada pelo aroma de laranja, e por um outro, doce, diferente de tudo que jamais cheirara em seus quinze anos de existência.

– A curiosidade matou o gato. – A cantineira estendia agora uma xícara de gemada em sua direção.

E agarrou a xícara, engolindo tudo de uma vez. A respiração quase faltando, os olhos, lacrimejando. Era a primeira refeição do dia. De alguns dias, talvez.

– E como é que se diz? – A cantineira empurrou a menina para que se sentasse.

– Miau. – Fez novamente, quase sem querer, quase em um arroto. E sentou-se na pontinha do banco. Pronta a sair correndo em caso de necessidade ou susto.

Mas o que viu foi a cantineira sorrir. A mulher parecia gostar da jovem aluna, julgando ser o som de sua resposta, um lampejo raro de inteligência e bom humor. Julgando-a, também, por seu tamanho e atitude, um tanto quanto mais nova do que realmente era. E, deixando a porta aberta atrás de si, dirigiu-se para a cozinha, deixando um convite expresso no ar.

Anita levantou-se com um cuidado extremo. Uma cautela que, a olhos desavisados, poderia parecer apenas timidez. Deu um passo, e depois outro, e outro mais. Um atrás do outro a fim de alcançar a fronteira entre aquele frio mundo de azulejos velhos e o universo de onde escapava aquele cheiro doce e aquele gosto bom de ovo e açúcar que acabara de experimentar. E chegou à porta da cozinha como quem pisa, pela primeira vez, nas terras de um país distante, nos sonhos de um mundo etéreo e de um outro plano que não vida, que não privações, que não essa aridez a que fora submetida desde o dia em que nascera.

Modo de Servir

Espere gelar por mais ou menos 4 horas.
Sirva acompanhado de raspas de laranja para decorar a gosto.

E entrou.

A porta se fechou imediatamente atrás de si, como se a aguardasse, como se houvera sido que preparada para tanto em uma espécie de armadilha. Mas a menina não se voltou. Frente a ela, algo prendera imediatamente sua atenção. Uma panela, gigantesca, maior que tudo que já vira ou imaginara em seus mais íntimos devaneios. Fumegante. Dentro dela, a cozinheira despejava uma quantidade exorbitante de gemada. Então era dali que vinha o som de matracas. A mulher fazia gemada. Muita. E mexia, com colher de pau, experimentando com a palma da mão estendida o doce do manjar que preparava.

– É pudim de laranja. Você gosta?

Anita não sabia.

Não seria capaz de imaginar o que poderia vir a ser, afinal, um pudim. Laranja sim, já provara algumas. Às vezes até boas, antes de se tornarem verdes e moles em suas cascas jogadas no lixo da tal vizinha. Não como essas que agora via. Perfeitas. Convidativas. Empilhadas às centenas em sacos de um tecido fino como teias de aranha a lhes impedir que rolassem soltas e felizes por toda a cozinha.

A menina estava tonta.

A fartura de frutas. A farinha metida em sacos maiores que a altura de alguns de seus irmãos. A máquina de suco deixando o caldo alaranjado escorrer grosso, direto para dentro das jarras. Tantas. E em prateleiras altas, potes de arroz, e de feijão, e de bolachas redondas de maisena, e coisas coloridas e provavelmente gostosas, cujos nomes jamais imaginou saber ou perguntar. E caixas de ovos, dúzias, posicionadas umas sobre as outras em uma montanha cujo pico ela perdia de vistas em uma neblina de alumbramento.

Então era isso. A escola era um universo comandado por uma feiticeira boa, que com luvas de látex e touca no cabelo, produzia comida para que as crianças do mundo, jamais voltassem a sentir fome.

O mundo girava.

Sua cabeça girava.

O banquinho onde estava sentada igualmente dava incessantes voltas, sem que ela percebesse que, seus próprios pés, aflitos com tão grandiosa visão, é que produziam o giro no assento móvel.

– Quer provar? Estou preparando para o primeiro dia de aulas.

Anita não se mexeu.

Não assentiu com a cabeça. Não disse nada. Nem que sim. Tampouco que não. Não sabia o que precisava dizer. As palavras, já escassas em seu vocabulário, pareciam ter desaparecido. Jamais alguém fora tão gentil com ela. A feiticeira, certamente, deveria ser muito poderosa. Anita, se soubesse ler, e mais, se soubesse algo desse mundo delicado de leituras e histórias, diria que se sentia como Alice, em um país onde as maravilhas eram feitas de doces, e de fartura.

E de comida.

A cozinheira colocou um copo descartável, com o pudim já previamente gelado sobre a mesa em frente à menina. Depois, com uma concha, despejou a calda de gemada e leite no topo da sobremesa.

– Calda Inglesa. – Explicou – Mas não acostuma que privilégio assim é só porque é o primeiro dia, hein! – Além do pudim, a feiticeira lhe entregara algo mais.

Não sabia o que era. Já havia visto, claro. Mas nunca usara. Uma colher. E já ia esticando indicador e dedo médio a fim de metê-los no pote, quando percebeu, de canto de olho, como é que a cozinheira fazia. E em um gesto natural de mimetismo, através da qual toda criança aprende seu mundo, repetiu o movimento que vislumbrou. Enfiar a colher na maciez das claras em neve e leva-las até a boca. Com cuidado. Passando a língua nos lábios, a fim de limpar o excesso ou, simplesmente para não deixar que nem uma pequena gota daquele sabor se perdesse.

E Anita chorou.

Não um choro de tristeza ou solidão. Aquele de desespero que lhe fizera companhia em cada noite, cada amanhecer, cada minuto daquilo que aprendera a chamar de vida. Não. Na verdade, era um choro tranquilo. Farto. De prazer. Ou de algo que de nenhum modo saberia expressar com palavras.

Gratidão.

Não. Não saberia dizer. Sentia. Apenas isso. E intuía que, se a morte lhe viesse, levando-a dali, naquele exato e singular momento, iria feliz. Plena. Certa de ter provado, ao menos uma vez, o sabor da felicidade.

E pela primeira vez desde muito tempo, Anita vislumbrou a beleza. E sonhou. A cada nova colherada, novas imagens se formavam dentro de algum recôndito lugar de sua imaginação. Agora seriam felizes. Ela, os irmãos, conheceriam o amor, e o sabor de comidas jamais provadas. A luz do sol entraria em sua casa e ela saberia como dizer à vizinha, que era grata pelo dia em que, há 5 anos, ela finalmente tomara coragem de pedir ajuda para as crianças. Nada mais a inquietava. A assistente social provavelmente demorara tanto, a fim de escolher o melhor dos lugares onde encaixar cada irmão. Todos juntos. Ali. Na cozinha da feiticeira. De barriga cheia e corações um pouco menos angustiados. Não haveria mais coceira, ou dor, ou doença. E de seus narizes já não mais escorreria aquele fluxo verde e salgado.

E aprenderiam a falar.

E a usar uma colher.

Aprenderiam, quem sabe até, a cantar.

Comeu o doce até o final. E tentou soltar a voz em um arremedo de melodia, na intenção de acompanhar aquilo que o radinho da cozinheira cuspia em um som metálico.

Sentada a seu lado, aquela mulher parecia enxergar sua alma. E antes mesmo de pensar em pedir, ela já havia preparado uma sacola com exatos nove doces. Mais um para ela e outros oito, para cada um de seus irmãos.

Respirou fundo. Nem tanto para tomar coragem de dar início ao trajeto de volta até a sua casa, mas sim para tentar, de algum jeito, guardar aquele aroma dentro de si.

E apertou a mão da cozinheira como aprendera mais cedo. Miou baixinho, quase sem querer. E saiu carregando seu tesouro de laranjas e claras, devidamente tampados com o lacre de plástico, para não entornar no caminho.

O peito arfava imaginando o momento de sua chegada. Os irmãos comeriam o presente da fada. E assim como ela, sonhariam com a escola, de cabelinhos raspados e as almas leves, como as neves das claras daquele novo sabor. E ela lhes contaria sua aventura. Sua incursão a um mundo de magia onde tudo poderia ser possível. Até a felicidade.

E abriu a porta do barraco empurrando o papelão da entrada.

E esboçou um sorriso ensaiado, quase autêntico. O único que sabia dar.

O cheiro de gatos ainda estava lá. Assim como os irmãos. Oito crianças grunhindo ansiosas em sua direção.

E antes mesmo que Anita tentasse lhes falar, quebraram as colheres grudadas à tampa e comeram o doce. Com as mãos. E arrotaram alto, farejando e guinchando seu contentamento.

Inquietas.

 

* “Pudim de Laranja” conquistou o 2º lugar na 28ª edição do Concurso de Contos Paulo Leminski.

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Paula Giannini é dramaturga, roteirista, escritora e atriz. Em sua obra, destacam-se o espetáculo “Casal TPM”, assistido por mais de 800 mil pessoas, e o infantil “Se Essa Rua Fosse Minha – Espetáculo de Brincar”, vencedor dos prêmios Valores do Brasil e Pontinhos de Cultura, e publicado pela Editora Bambolê, em 2017. No mesmo ano, lançou Pequenas Mortes Cotidianas (Oito e Meio, 2017), sua estreia na prosa.

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