Quatro poemas de Bruno Brum

Quatro poemas de Bruno Brum

Fevereiro 28, 2019 2 By revistalavoura

Angu da influência

baudelaire não leu bolaño kafka não leu drummond tchekhov não leu carver rimbaud não leu o’hara dante não leu piva dickinson não leu creeley lorca não leu helder villon não leu whitman safo não leu sophia sá-carneiro não leu torquato corbière não leu parra lautrèamont não leu brossa huidobro não leu hilda camões não leu rosa homero não leu petrônio shakespeare não leu maiakovski oswald não leu leminski goethe não leu wisława laforgue não leu girondo virgílio não leu vilariño cruz e sousa não leu williams sousândrade não leu ginsberg

a vida é assim mesmo

Ninguém por perto

Admiro as plantas que vivem neste apartamento.

Sem água fresca, cortinas fechadas, pouca conversa.

Respeito essas plantas: pequenas, robustas, teimosas.

Sem ninguém por perto quando o sol maltrata.

Pra limpar a poeira ou abrir a vidraça.

No parapeito, na cozinha, sobre a mesa da sala.

Em silêncio, orgulhosas.

Não morreriam a troco de nada.

Com muita naturalidade

O rapaz de camiseta branca ainda não se deu conta.

O malabarista no semáforo desconfia.

A menina de aparelho acha que é tudo mentira.

O irmão mais novo olha sem disfarçar.

A mãe e o pai se perguntam o que está havendo.

O homem de mochila age com muita naturalidade.

A mulher com o embrulho tenta manter a calma.

O flanelinha parece ficar inquieto.

O casal de turistas se levanta para ver melhor.

A ruiva de uniforme espera estar enganada.

A adolescente reconhece que chegou a hora.

O repórter respira e ajeita o casaco.

A moça de vestido azul está impecável.

O senhor de chapéu e bigode também arrasa.

Jovem

Jovem deixa óculos em museu

e visitantes pensam que é obra de arte.

Jovem deixa obra de arte em museu

e visitantes pensam que perderam os óculos.

Jovem recolhe óculos de museu

e visitantes pensam qualquer outra coisa.

Jovem, colabore.

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Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte, em 1981. É poeta e designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007) e Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia, em 2010). Tem trabalhos publicados em periódicos e antologias no México, na Argentina, no Peru, no Paraguai, na Espanha e nos EUA. Em 2018, a Antônima Cia de Dança apresentou em São Paulo o espetáculo Isso ainda não nos leva a nada, inspirado no livro Mastodontes na sala de espera. Vive em São Paulo desde 2012.