Quatro Poemas de Diana Junkes

agosto 12, 2018 0 By Arthur Lungov

Poema Antinatural

feche os olhos de sua mãe

ordenou a enfermeira

complacente e sarcástica

olhei então para seus olhos

abertos ao nada a boca aberta a morte

deslizei a mão esquerda das sobrancelhas

aos malares salientes como os meus

 

até aquele momento

eu não havia entendido

ela agonizava eu não havia

entendido a despeito da angústia

da enfermagem do susto dos velhinhos

do grito das paredes da clínica

eu não entendia os dedos roxos

a pele fria o ar que a custo entrava

e não saía de seu peito sem mamas

eu não entendia a falta das rimas

 

guardo a memória tátil de sua pele fresca

ou fúnebre a leveza dos cílios que a morfina

não minguou guardo a memória de tudo e

esse gesto não me permitiu perdoar minha

mãe da matricida que ela foi

pois toda mãe é uma matricida

seja santa ou puta ou ambas

tritura o coração das filhas dos filhos com horror

e piedade numa máquina de moer carnes

que o julgamento das mães seja implacável

 

quanto à minha não a perdoo

não a amo mais nem menos

pelos cadernos encapados

pelas fitas no cabelo pelas noites de febre

nem a odeio mais ou menos pelo

feijão que me fez engolir à força

até a náusea profunda do medo e da dor

pelos dias de abandono inexplicável

apenas não a perdoo

 

aceito-a como um verso amargo ou flor

sem o que não haveria esta mão que escreve

este umbigo matricida que derramará amor e feijão

criminosamente sobre seus frutos

toda mãe é violência.

Maria

o grito dói bem mais que os hematomas

se ele batesse acabava mais rápido

o grito ecoa do grito nasce outro grito

(ela só sabia falar baixo)

 

a carne é fraca o sexo é bom ele tão carinhoso

amante generoso dormiam abraçados e não

deixava faltar nada em casa sobrava pão sobrava

berro palavrão porrada porra e feijão sobrava cachaça

tempestade em corpo de água ardente

fel também sobrava

 

o grito dói bem mais que os hematomas

se ele me batesse acabava mais rápido

o grito ecoa do grito nasce outro grito

(ela só sabia falar baixo)

 

um dia ela vendeu a enceradeira

companheira desnecessária

quando falta o chão

recebeu o dinheiro fez uma trouxa

pegou um ônibus velho e azul

meteu o filho pequeno dentro

foram embora pra longe muito longe

 

o grito dói bem mais que os hematomas

se ele me batesse acabava mais rápido

o grito ecoa do grito nasce outro grito

(ela só sabia falar baixo)

 

ouviu dizer que ele agora grita

com um casaco de lã

que não tem corpo que não

tem rosto que não tem voz

mas era dela e dela ele não pode

se separar jamais

 

o grito dói bem mais que os hematomas

a distância da dor é o grito

Amantes São Soldados

“militat omnis amans”

(Ovídio, Amores, 1,9)

é no sexo que o melhor perdão acontece

na foda que vem depois da guerra

há sempre um resto de raiva um resto

de mágoa um naco de dor

 

mas no canto da cozinha

nos passos afoitos pelo corredor

na cama trincheira azul

os corpos em batalha ardente

depõem as palavras letais

 

é devastadora a ternura do olhar

o perfume dos pelos invadindo

as palmas das mãos os poros

 

os soldados urram

é preciso fechar as janelas

os soldados sussurram

se abraçam com urgência

 

a bandeira branca dos orgasmos

é infinita você acena as suas armas

eu ofereço o fronte açude

dos meus vãos

 

vem meu bem façamos as pazes

são tantas as lutas que virão

o mundo anda à beira do abismo

a cidade lá embaixo a nosso pés

domingo tem samba sarau futebol

 

nada disso importa agora

meu bem vem

vamos colocar fogo em tudo

Depoimento

a morte está em qualquer momento

sei disso porque carrego corpos

não me lamento porque não estudei

e foi o que me coube neste mundo

 

também não sofro nem me espanto

entre o pranto e o pagamento do serviço

a distância é longa e nada há para reclamar

o dinheiro é curto mas dá bem para comer

 

só me abalo se o morto é criança

o choro dos pais a faca do desatino

a ordem inversa da vida é vil

se não é criança a carniça

para mim tanto faz

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Diana Junkes nasceu em São Paulo, em 1971. É crítica literária e professora de literatura na Universidade Federal de São Carlos, onde também coordena o Grupo de Estudos de Poesia e Cultura. Dedica-se ao estudo da poesia brasileira contemporânea e, particularmente, à obra de Haroldo de Campos. Dentre suas publicações destaca-se o livro As Razões da Máquina Antropofágica: Poesia e Sincronia em Haroldo de Campos (Unesp, 2013). Como poeta publicou em revistas eletrônicas e blogs e é autora de Clowns Cronópios Silêncios (2017) e Sol Quando Agora (2018), ambos publicados pela editora Urutau.