Quatro Poemas de Jeanne Callegari

05/09/2018 / postado por Arthur Lungov

Alicate

sobre o que se pode cortar. pele que se derretida em brancos e azuis, que coisa é o vermelho, uma cor tão escolhida. preferencialmente sem escalavrar grandes granduras, o mar é raso, o tesouro sutil rutilado, trabalho a liquefazer antes que o sol –

 

na boca apodrecem, fora da mão apodrecem, endurecem, metal guarda os portões, mais que guarda, garante, mais que garante, decide. é de cuidar, não jeito, não força, milênios delicada e todas aquelas fomes no deserto, todas as fogueiras e vigias, para aqui. cutículas e um guindaste, um teto, tudo isso e tanto –

Chaveiro Noturno

ainda pia azulada resistindo, dentes, umas janelas legendas em franca e cheia de dedos, sem mais democracias.

Absinto

selva de brumas sinuosas, abismo ao centro, oculto, e um canto de sereia. ciciar suave, passou por lá, passou, sim, nada sei exceto isso, a passagem e a sombra em um fotograma sussurrante. sobe a cerração, serpente sibila em azul profundo, conta contos de sonar, soa sonos de cantar, alucinar, shhh sss, sente, cada vez mais dentro, ao centro, suspirado no fundo um soneto, tão longe, tão desperto –

Ferrugem

a guirlanda no pescoço do pássaro, o girassol cromado em sacrifício. guitarra, dobradiça embriagada. um ramalhete, um alheiro, um micróbio. um bracelete, cidreira, um acrílico. a brevidade do barril edredom. o assobio cromado na acrópole, mangueira a quatrocentos, heroína hesitante no hospício. uma harpa, uma hélice, uma várzea. em caracol, como um beque no drible, nem capaz de tanta –

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Jeanne Callegari nasceu em Uberaba (MG) em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável(Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho, e os livros de poemas Miolos Frescos (Patuá, 2015) e Botões (Corsário-Satã, 2018). Tem textos publicados nas antologias Primeiras vozes (Quelônio, 2018), Golpe: antologia-manifesto (Nosotros, 2017), Sierra Tropicália: poesía contemporánea de Brasil e México (Cielo Aberto, 2016) e É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Com Maíra Mendes Galvão, forma o duo Pingues Ovelhas, de pesquisa em poesia, performance e tradução. Vive em São Paulo (SP).

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