Quatro Poemas de Luís Perdiz

19/06/2018 / postado por Arthur Lungov

Fera

o amor é delírio
com seus sopros sedentos
de esporos na mata esparsa
onde nossa derme se reveste
na seiva do sexo celeste
na vala voraz do entreaberto
na galáxia rasgada de seus versos

Prece

deus me proteja do som
e da esgrima carnívora do dia
escalavrada fremente bárbara
que avança atônita e fere
a tudo e a todos
neste mar soterrado
por vidas em aquário

Nenhum Jardim

nenhum jardim
cadência turva
poças de espera

nenhum jardim
extermínio rente
seiva expatriada

nenhum jardim
marchas financeiras
casos isolados

nenhum jardim
florescências sagradas
aqui pisoteadas

nenhum jardim
quinhentos anos
não bastaram

Lenda

juntos no fim dos tempos
povoado por guepardos e mediterrâneos
dançaremos febris sobre as sucatas da história

amor marítimo entregue a novas terras
caravela ensolarada contrabandeando
ervas inseguras
e a visão incurável de selva e morte

__
Luís Perdiz é autor dos livros Saudade Mestiça (Patuá, 2016) e Visão Incurável, que integra a Coleção Vozes Contemporâneas, coordenada por Claudio Willer e pelo Ed.Lab (parceria das editoras Demônio Negro e Hedra). É um dos fundadores e editores do portal de literatura Poesia Primata e da Editora Primata. Atua também como cantor e compositor no grupo Estranhos no Ninho. Nasceu em Campinas (SP) e atualmente vive em São Paulo, onde pesquisa produções poéticas brasileiras da atualidade.

Deixe o seu Comentário aqui!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *