Quatro poemas de Marcelo Labes

22/01/2018 / postado por Arthur Lungov

não é nos olhos das crianças

mas no decúbito dos bêbados

que amanhecem nas calçadas

que reside a inocência.

 

a esperança habita os olhos do

suicida e passa ao largo das

maternidades e salas de espera

de quimioterapia.

 

a vergonha que infesta a nudez

é muito mais leve do que este

temor que habita dentro das

roupas.

 

foram poucas as vezes que se

viu amor maior que este entre

estes que ignoram a existência

um do outro.

 

muito poucas.

 

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a marca do isqueiro

a marca da cerveja

a marca do cigarro

 

meu pai me ensinou

o básico necessário

para a sobrevivência

 

repetindo repetindo

vai dando certo até

que não dê mais

 

o melhor isqueiro

entre os mais baratos

a melhor cerveja

entre as mais baratas

o cigarro melhor

e mais barato

 

além disso aprendi

também que caminhar

se caminha pra frente

 

por ser mais simples

mais certeiro e não

chamar a atenção

 

dos passantes.

 

__

quando duas nuvens se tocam

duas ou mais há troca de energia

e calor e se estiverem carregadas

de energia e calor e água haverá trovões

 

e relâmpagos e se for o caso também

pode haver raios mas isso depende

da troca de energia com a terra e os

polos positivo e negativo das nuvens

 

quando duas nuvens duas ou mais

se tocam elas se juntam se misturam

formam uma nuvem maior e como se

dividem depois as nuvens misturadas?

 

quando duas nuvens se tocam duas

ou três ou tais acontece algo inexplicável

para quem as assiste de baixo e reclama

que agora o coelho e o elefante

 

já não são mais.

 

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um inventário de todos os mortos

inclusive aquele jovem velado pelo

pai de barba muito branca na sala de casa

eu disse a carminha:

morreu o filho do papai noel.

: a mulher vítima de acidente de trânsito

quem chegasse bem perto poderia ver os

cacos de vidro furando ainda a pele sem vida

: o homem atropelado para quem

escrevi um poema.

 

quem perguntasse, responderia que

não ando triste nem com medo

mas se o peso dos mortos não fosse tamanho

a ponto de me arcar as pernas,

caminharia muito mais longe e não me

doeriam tanto as costas.

 

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Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. Autor de Falações (EdiFurb, 2008), Porque sim não é resposta (Antítese, Hemisfério Sul, 2015), O filho da empregada (Antítese, Hemisfério Sul, 2016), Trapaça (Oito e Meio, 2016) e Enclave (Patuá, 2018 – no prelo). Participou da mostra Poesia Agora (edição carioca). Edita a revista eletrônica O poema do poeta e publica no blog http://mmlabes.blogspot.com e na página http://facebook.com/matematicaligraficamentira.

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