Seis Poemas de Julio Cortázar Traduzidos por Cesare Rodrigues

26/08/2018 / postado por Arthur Lungov

O escritor argentino Julio Cortázar nasceu, por acaso, em Bruxelas, na Bélgica, em 1914, e foi professor pelo interior da Argentina até mudar-se para Paris, nos anos 1950, e iniciar seus projetos mais ambiciosos.

Famoso pelo jogo do antiromance  Rayuela, experimenta com formas híbridas entre conto, ensaio, nota, reflexão e poema em seus livros mais radicais, como  Último Round ou  La Vuelt al Día en Ochenta Mundos.

Seus poemas estão reunidos no volume Salvo al Crepúsculo , publicado no ano de sua morte, 1984, cuja edição de 2009 da Alfaguara de Madri serve de base para os originais aqui publicados.

Para Ler de Forma Interrogativa

Você viu

verdadeiramente viu

a neve os astros os passos felpudos da brisa

Você tocou

de verdade tocou

o prato o pão o rosto dessa mulher que tanto ama

Você viveu

como um golpe na cara

o instante o ofego a queda a fuga

Você soube

com cada poro da pele soube

que teus olhos tuas mãos teu sexo teu brando coração

tinha que tirá-los

tinha que chorá-los

tinha que inventá-los outra vez.

 

Para leer en forma interrogativa

 

Has visto

verdaderamente has visto

la nieve los astros los pasos afelpados de la brisa

Has tocado

de verdad has tocado

el plato el pan la cara de esa mujer que tanto amás

Has vivido

como un golpe en la frente

el instante el jadeo la caída la fuga

Has sabido

con cada poro de la piel sabido

que tus ojos tus manos tu sexo tu blando corazón

habia que tirarlos

habia que llorarlos

había que inventarlos otra vez.

O Bom Menino

Não saberei desamarrar os sapatos e deixar que a cidade me morda os pés,

não me embebedarei sob os poentes, não cometerei faltas de estilo.

Aceito este destino de camisas passadas,

chego a tempo aos cinemas, cedo meu acento às senhoras.

O grande desajuste dos sentidos me vai mal, opto

pelo antisséptico e pelas toalhas. Me vacino.

Olha que pobre amante, incapaz de se meter em uma fonte

para te trazer um pecadinho vermelho

sob a raiva de guardinhas e babás.

 

El niño bueno

 

No sabré desatarme los zapatos y dejar que la ciudad me muerda los pies,

no me emborracharé bajo los puentes, no cometeré faltas de estilo.

Acepto este destino de camisas planchadas,

llego a tiempo a los cines, cedo mi asiento a las señoras.

El largo desarreglo de los sentidos me va mal, opto

por el dentífrico y las toallas. Me vacuno.

Mira qué pobre amante, incapaz de meterse en una fuente

para traerte un pescadito rojo

bajo la rabia de gendarmes y niñeras.

Bolero

Que vanidade imaginar

que posso dar-te tudo, o amor e a felicidade,

itinerários, música, brinquedos.

É certo que é assim:

todo o meu te dou, é certo,

mas todo o meu não te basta

como a mim não basta que me dês

todo o teu.

Por isso não seremos nunca

o par perfeito, o cartão postal,

se não somos capazes de aceitar

que só na aritmética

o dois nasce do um mais um.

 

Por aí um papelzinho que

dizia só:

 

Sempre foste meu espelho,

quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

 

E este fragmento:

 

A lenta máquina do desamor

a engrenagem dos refluxos

os corpos que abandonam as almofadas

os lençóis os beijos

e de pé ante o espelho se interrogando

cada um a si mesmo

já não se olhando entre eles

já não nus para o outro

já não te amo,

meu amor.

 

Bolero

 

Qué vanidad imaginar

que puedo darte todo, el amor y la dicha,

itinerarios, música, juguetes.

Es cierto que es así:

todo lo mío te lo doy, es cierto,

pero todo lo mío no te basta

como a mí no me basta que me des

todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca

la pareja perfecta, la tarjeta postal,

si no somos capaces de aceptar

que sólo en la aritmética

el dos nace del uno más el uno.

 

Por ahí un papelito

que solamente dice:

 

Siempre fuiste mi espejo,

quiero decir que para verme tenía que mirarte.

 

Y este fragmento:

 

La lenta máquina del desamor

los engranajes del reflujo

los cuerpos que abandonan las almohadas

las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose

cada uno a si mesmo

ya no mirándose entre ellos

ya no desnudos para el otro

ya no te amo,

mi amor.

Liquidação

Me sinto morrer em ti, atravessado de espaços

que crescem, que me comem como mariposas famintas.

Fecho os olhos e estou vertido em tua memória, apenas vivo

com os lábios abertos donde remonta o rio do esquecimento.

E tu, com delicadas pinças de paciência me arrancas

os dentes, os cílios, me desnuda

o trevo da voz, a sombra do desejo,

vais abrindo em meu nome janelas ao espaço

e buracos azuis em meu peito

por onde os verões fogem se lamentando.

Transparente, aguçado, intercalado de ar

flutuo no cochilo, e todavia

digo teu nome e te desperto aflita.

Mas te esforças e me esqueces,

sou apenas a borbulha

que te reflete, que destruirás

num piscar de olhos.

 

Liquidación de saldos

 

Me siento morir en ti, atravesado de espacios

que crecen, que me comen igual que mariposas hambrientas.

Cierro los ojos y estoy tendido en tu memoria, apenas vivo,

con los abiertos labios donde remonta el río del olvido.

Y tú, con delicadas pinzas de paciencia me arrancas

los dientes, las pestañas, me desnudas

el trébol de la voz, la sombra del deseo,

vas abriendo en mi nombre ventanas al espacio

y agujeros azules en mi pecho

por donde los veranos huyen lamentándose.

Transparente, aguzado, entretejido de aire

floto en la duermevela, y todavía

digo tu nombre y despierto acongojado.

Pero te esfuerzas y me olvidas,

yo soy apenas la burbuja

que te refleja, que destruirás

con sólo un parpadeo.

Noturno

Tenho esta noite as mãos negras, o coração suado

como lutar até o esquecimento com as centopéias do fumo.

Tudo chegou lá, as garrafas, o barco,

não sei se me queriam, e se esperavam me ver.

No diário jogado sobre a cama diz encontros diplomáticos,

uma sangria exploratória o bateu alegremente em quatro sets.

Um bosque altíssimo rodeia esta casa no centro da cidade,

eu sei, sinto que um cego está morrendo nas cercanias.

Minha mulher sobe e desce uma pequena escada

como um capitão de navio que descoonfia das estrelas.

Há um copo de leite, papéis, as onze da noite.

Lá fora parece que multidões de cavalos se aproximam

à janela que tenho às minhas costas.

 

Nocturno

 

Tengo esta noche las manos negras, el corazón sudado

como después de luchar hasta el olvido con los ciempiés del humo.

Todo ha quedado allá, las botellas, el barco,

no sé si me querían, y si esperaban verme.

En el diario tirado sobre la cama dice encuentros diplomáticos,

una sangría exploratoria lo batió alegremente en cuatro sets.

Un bosque altísimo rodea esta casa en el centro de la ciudad,

yo sé, siento que un ciego está muriéndose en las cercanías.

Mi mujer sube y baja una pequeña escalera

como un capitán de navío que desconfía de las estrellas.

Hay una taza de leche, papeles, las once de la noche.

Afuera parece como si multitudes de caballos se acercaran

a la ventana que tengo a mi espalda.

Ganhos e Perdas

Volto a mentir com graça,

me inclino respeitoso ante o espelho

que reflete meu pescoço e minha gravata.

Creio que sou esse senhor que sai

todos os dias às nove.

Os deuses estão mortos um a um em longas filas

de papel e cartão.

Não sinto falta de nada, nem sequer de ti.

Sinto um oco, mas é fácil

um tambor: pele dos dois lados.

Às vezes voltas à tarde, quando leio

coisas que tranquilizam: boletins,

o dólar e a libra, os debates

das Nações Unidas. Me parece

que tua mão me penteia. Não sinto tua falta!

Só coisas pequenas de repente me faltam

e queria buscá-las: a felicidade,

e o sorriso, esse animalzinho furtivo

que já não vive entre meus lábios.

 

Ganancias y pérdidas

 

Vuelvo a mentir con gracia,

me inclino respetuoso ante el espejo

que refleja mi cuello y mi corbata.

Creo que soy ese señor que sale

todos los días a las nueve.

Los dioses están muertos uno a uno en largas filas

de papel y cartón.

No extraño nada, ni siquiera a ti

te extraño. Siento un hueco, pero es fácil

un tambor: piel a los dos lados.

A veces vuelves en la tarde, cuando leo

cosas que tranquilizan: boletines,

el dólar y la libra, los debates

de Naciones Unidas. Me parece

que tu mano me peina. ¡No te extraño!

Sólo cosas menudas de repente me faltan

y quisiera buscarlas: el contento,

y la sonrisa, ese animalito furtivo

que ya no vive entre mis labios.

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Cesare Rodrigues é poeta, autor de Caso Fossem Ursos (Empório do Osório, 2016) e do ainda não escrito Como Provar Que Você Nunca Existiu. 

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