Três poemas de Bruno Rosa

30/01/2018 / postado por Arthur Lungov

a caça

capturar na palavra pássaro seu voo circunflexo

na palavra dobradiça a pele do aço enferrujado

na palavra água o rumor de suas claras profundezas

na palavra casa o sono alto resvalando pela cumeeira

na palavra chão o gesto aberto para a transcendência

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os camaradas

  – aos mesmos

Rapadura sobre as vigas
embrulhadas em papel jornal
Revistas de mulheres nuas
entre as tábuas da parede
descascando a demão de cal
Porta vã e boquiaberta
sem alpendre nem quintal
dá num terreirão baldio
onde só erva e capinzal
E um rádio rouco movido a pilha
chuviscando e sem sinal
aos ouvidos atentos os lances
de uma partida de futebol

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a dobra

da porta sobre a rua

da janelas sobre a tarde

dos telhados onde pássaros

vieram pousar

das chapas de ferro de Amílcar de Castro

   redimindo a matéria

   de seu pecado original

das pálpebras das ondas por um instante

congeladas sobre suas próprias pupilas

do vento rangendo a gemidos

dos sinos que dobram por mim

      por ti por Abelardo

da massa que forma o esqueleto axial

a que só bisagra num sentido

     e sobre si mesma se fecha, coroando

     seu próprio mistério

           na noite mineral

 

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Bruno Rosa é graduado, mestre e doutorando em Filosofia pela FFLCH-USP. Também é estudante de Medicina da FMUSP. Nasceu no interior de São Paulo e se criou num sítio do qual, julga um amigo, ele jamais saiu.

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