Três poemas de Valeska Torres

Três poemas de Valeska Torres

Março 14, 2019 0 By revistalavoura

Pombo morto

o tempo com suas grandes mandíbulas esmigalhando a carniça caída feito o pombo morto entre carros na dom hélder câmara

 

as cutículas sangrando espirrando líquido vermelho tudo é dor dentro as unhas se quebram a cada soco dado nesse punho que é meu desespero essa fala comprida esse wifi torres 123 minha bolsa bege aquela carteira de trabalho rabiscada os seios com estrias brancas e largas são minhas as estrias essa vulnerabilidade o cotovelo cicatrizado

 

taquara faça carinho em dias de sol como aquele domingo de galeto pepsi e transas de compridas horas no quarto o eu rebocado com pasta branca

 

sinto falta do que foi meu e não será de ninguém não será

não pela morte mas pelos dias que foram nossos ninguém nunca arrancará de mim o que foi meu não com o tempo com o tempo não tirará de mim o que foi meu você aquele domingo de pau vermelho com as veias tão minhas

 

em caso de emergência utilize o martelo 296 me dando crises pânico em abolição quebro os cacos pequenininhos para sair de dentro deles como se saem os espíritos apossando-se das pequenas coisas quebro você no canto nunca meu nem mesmo eu para voltar ao lugar do vaso barro sem flores sem água sem terra

 

o poema fudido suplica todo ferido pra que te deixe atravessar a rua

de longe

te vejo indo


Corações de alcachofra

corações de alcachofra em conserva de óleo

mastigados depois do jantar sobre a mesa

os pratos, os talheres, os corpos usados

 

abutres miúdos e vesgos

rasantes

afiam suas unhas no amolador

 

arrancam as peles gorduras

jogam na vala atrás de minha casa

desfiguram a carne

 

explosões sucateiam o ferro

que corroído serve de mordaça

a cidade como se nunca houvesse

]amanhecido

na madrugada

forra-se um tapete infestado

 

cheiro de alho na sola dos pés

caminhando sobre as ruas

velhos não usam sapatos

 

deus não anda entre os meus

sobrevoa em helicópteros

arranha-céus

onde dorme em colchão de penas


(Insira uma frase de Eva Perón)

 

para a Argentina

do bico do

peito há

os que mamam em grandes tetas

 

o pingo de leite

branco sobre a hispano américa amedrontada

 

sombra-nos:

  1. farelos,
  2. chupar os dedos,
  3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho

 

aos que não tomam leite

– esses que infestam a cidade com cartazes de

desaparecidos – restam-lhe

o café preto amargo

 

trepamos sobre essa

cama, mas não nos

lambemos tampouco

partilhamos nossas

línguas falta-nos

salivas

a cerveja, o matte dividimos no poema

após um pancho entre Catarmaca y Sarmiento

 

da goela

o pollo descendo

abaixo até o

engasgo

yo soy soy yo

a balsa que atraca no rio

Paraná a faca que corta o

pão massudo dentro

salsicha temperada de salsa crioulla.

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Valeska Torres é poeta e estudante de biblioteconomia pela UNIRIO. Nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes, em 1996. Mora em Brás de Pina. Publicou na coletânea Do Rio ao mar (Turista Aprendiz, 2015), na antologia Seis temas à procura de um poema (FLUP, 2017), e na antologia Alma – Projeto Identidade (Editora Conexão 7, 2018). Tem fanzines publicados no Brasil, Argentina e Paraguai, por diferentes editoras locais, e em revistas digitais. É autora de O coice da égua (No prelo, 7 Letras).