Um romance da Presidência da República

setembro 26, 2018 0 By Arthur Lungov

Nós somos criados a um só tempo pela superstição da humildade e pela vontade do sucesso e do heroísmo. É uma contradição que segue em espiral, e a solução é querer chegar ao topo, mas com simplicidade e sem competir com ninguém, como se o sucesso máximo fosse permitido desde que não haja vaidade. Paradoxal? O protagonista Cássio Haddames de O Imortal (Companhia das Letras, 2018), novo romance de Mauricio Lyrio, não foge da questão e a resolve a seu modo. Confessa seu gosto por competição, não se incomoda que o chamem de arrogante no mundo das letras e da diplomacia, e nem se constrange por falta de modéstia. Os céus não o punem pela desmesura (não mesmo): é ele enfim o brasileiro que vence o Prêmio Nobel de Literatura de 2025 e o candidato à presidência da República de 2026.

Podemos acompanhar a personalidade de um homem tão laureado publicamente, e tão comum e atravessado por questões em seu foro íntimo, em diversos recortes que permeiam o romance: trechos de diários, cartas, entrevistas, e-mails, memorandos, manuscritos literários, reportagens, gravações de análises, roteiros. Tudo está à mostra, em um futuro pouco distante, quando questões e registros de uma pessoa tornam-se cada vez mais acessíveis. Esta pessoa se torna então mais decifrável? É uma resposta que podemos arriscar no empenho de compreender Cássio. Ele mesmo se multiplica em propagandas e campanha, em ficções existenciais. É um homem público nos limites onde poucos foram. Ainda assim, e ainda cruzando seus dados, suas contas, seus textos, nós chegaremos ao que ele é?

Eis um dilema de profundidades em meio a uma sátira política e ao humor nonsense. É um equilíbrio difícil. De um lado há máximas dignas de um caderno nietzschiano, como esta: “Meus sonhos de grandeza sempre me pareceram artifícios de momento, que me poupavam olhar o abismo”. De outro, há quebras da razoabilidade, personagens com nomes como Jacobo, André Damadeiro, Carlos de Jeane, Arraes Gaumois, e gracejos do tipo Bolsa Escritor-Leitor, em que se imagina um subsídio para escritores comprarem livros de outros autores e assim conseguirem enfim esgotar a tiragem um do outro. Apesar de uma piada como esta durar mais do que o seu efeito, com um edital extenso e uma lista de centenas de escritores brasileiros, o livro, no mais, consegue balancear seus diferentes humores e se tornar uma força única.

O tom ácido se soma, e em alguns instantes parece que o cinismo e a melancolia não escapam de nenhuma parte do planeta, seja Nova York, Buenos Aires ou a China. O glamour do topo e das conquistas é também uma planície árida de pequenos favores, indicações e escândalos, e quem o almeja há de se perguntar honestamente sobre seu desejo. No entanto não se cai na separação entre mundo bom da pureza das intenções e mundo mau das trapaças e da falsa civilização. Seria aí mais outra inocência, e o que se tenta com Cássio é sair da ingenuidade. Ele pode ser bem severo para tanto: “Mais cênica, a rivalidade entre políticos não chega a ser tão visceral quanto a rivalidade entre escritores. Nenhum ser é mais competitivo do que um escritor.”.

O autor, que já vinha do ótimo Memória da Pedra (Companhia das Letras, 2013), parece manter a influência de romances franceses da era do existencialismo e de J. M. Coetzee, agregando, declaradamente, Jorge Luis Borges, Pirandello e Machado de Assis. Segue como um dos seus problemas de pensamento a relação entre pai e filho, o sucesso enquanto conquista pública, mas drama pessoal, e a possibilidade de felicidade apenas fora do olhar social. Mauricio Lyrio brinca resgatando a trama de seu primeiro romance como motim da primeira virada de Cássio no passado, o atropelamento de um menino de rua chamado Romário, e flerta com a autoficção, já que o próprio é também romancista e diplomata. A possível autoficção, contudo, também é uma das ironias deste narrador que consegue nos ater. Entre alguns excessos de parágrafos em linguagem oficial, relatos e impressões de viagens alongadas, a leitura de O Imortal é vívida e nos chama.

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Saulo Dourado nasceu no sertão baiano, em 1989, e vive em Salvador. É escritor e professor de Filosofia na UNEB. Venceu os prêmios literários Ferreira de Castro e Correntes d’Escrita, para jovens autores, ambos em Portugal. Escreveu os livros de contos O autor do leão (FB Publicações, 2017) e O mar e seus descontentes (Via Litterarum, 2015), além do romance O borbulhar do gênio (2018), a ser lançado pela editora Caramurê.