Um nome basta para dizer quem somos?

28/05/2018 / postado por Lucas Verzola

No romance Karen, a escritora portuguesa Ana Teresa Pereira constrói e desconstrói posições e papéis por meio de uma trama fluída, que alcança temas difíceis como a formação e a conservação da identidade.

Na construção da nossa identidade não podemos prescindir do olhar do outro, ao mesmo tempo em que precisamos nos afastar desse olhar para usufruir de uma mínima liberdade. A personagem [que pode ser] Karen frequenta espaços físicos bem delimitados enquanto, por oposição, sua “verdadeira” identidade possui contornos bastante indefinidos.

A personagem central criada por Ana Teresa Pereira – cercada de objetos e de narrativas capazes de referenciar seu lugar no mundo e sua identidade – se recusa a confiar nos vestígios materiais e na palavra do outro. Como quem não é, mas está sendo, ela parte de imagens para entender sua história por meio dos afetos, pelo diálogo com o que é silenciado, pelos sonhos e por tudo que o intuído pode sinalizar. Temos, no romance, uma mulher que rompe com as estruturas de reconhecimento vulgares, quando as referências que procura no mundo exterior são fruto de uma expedição que parte de seu universo interior. Assim, a realidade psíquica, ainda que submetida às volutas do inconsciente e de uma linguagem cifrada, disputa com vantagem o estatuto de realidade. A jovem protagonista é alguém para quem o desejo de ser e de fazer é uma potência que jorra mas parece não ter encontrado, ainda, maneiras estáveis de correr; como o fluxo de uma queda d’água intensa, escorregadia e oculta.

Aliás, a presença relevante de uma queda d’água na obra remete, por que não?, à quarta parede do teatro: a parede imaginária situada em frente ao palco, através da qual a plateia assiste passiva à ação do mundo encenado. Ana Teresa Pereira coloca o leitor frente à duvida sobre qual o mundo real e qual o mundo encenado. O corpo, móvel e fugidio como matéria líquida, convalesce – e pode ser encontrado [ou perdido?] em fotografias, em sensações, na cicatriz remanescente. Enquanto isso, entretanto, ele é construído sob múltiplos rostos – lidos aqui como emoções que se deixam transparecer.

Talvez a expectativa do leitor nas primeiras linhas do romance seja a de encontrar, nas páginas seguintes, uma revelação, a solução de um mistério. A insegurança quanto à lucidez ou à credibilidade do ponto de vista da personagem narradora parecem despertar a procura por respostas mais “confiáveis”. Essa procura, todavia, logo é substituída pelo gesto de, agarrados à sua lógica e capacidade de encadear acontecimentos, andarmos de braços dados com uma mulher capaz de fazer de suas interrogações as nossas. A incerteza produzida pelo intrincado dos acontecimentos no livro solicita do leitor certo despojo quanto ao racional, permitindo-se também ele deixar-se guiar pela intuição ao acompanhar os dias da personagem dentro de uma residência isolada, com ares aristocráticos, um dos cenários principais de ambientação da narrativa.

A certo ponto, a casa – e a mulher – podem ser lidos como uma fotografia, uma memória, um pesadelo, uma fuga, um cômodo, um ateliê; qualquer morada [ou herança] paralela dentro da qual é difícil precisar a identidade não só de um, mas de todos os personagens.

Ler Karen é estar diante de um romance onde o que vale é o que é contado, pois tanto o que é narrativa quanto o que é escassez dialogam com a capacidade de se entregar e com o desejo de resistir que movem o curso das águas, da vida.

Dados: Ana Teresa Pereira é uma escritora portuguesa nascida em 1958, no Funchal. Autora de obras como Se nos encontrarmos de novo, O fim de Lízzie e outras histórias e As velas da noite. Estreou na literatura com Matar a Imagem, em 1989, que ganhou o Prêmio Caminho Policial. Seu livro mais recente, o romance Karen, foi vencedor do Oceanos 2017. Publicado em Portugal no ano anterior pela Relógio D’Água, chega ao Brasil pela Todavia. (120 pp. R$39,90)

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Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e cofundadora do projeto Fotoverbe-se.com, no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais”, vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro e publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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