Uma & outra, conto de Myriam Campello

03/08/2018 / postado por André Balbo

“Uma & outra” integra o livro de contos Palavras são para comer, publicado pela editora Oito e meio, em 2017, e finalista do 3º Prêmio Rio de Literatura.


                                                                        Jácoma tinha duas cabeças
mas não notei o detalhe ao flutuar em seus olhos turmalina, o amor é distraído e eu não dava a mínima para pequenos defeitos mesmo se os visse, só ajudavam a quebrar o monótono da perfeição, e ainda assim apenas reparei na segunda cabeça, que era invisível embora atuante, quando o fato se impôs cabalmente.

                                                                        “Repito”, disse Jácoma,
e a seguir enunciou com ênfase o que jamais dissera, a partir dali notei que formulava coisas pela primeira vez como se já as tivesse proferido há minutos, o  que não era de espantar pois circulava em duas vidas diferentes com desenvoltura, uma na própria cabeça aferrolhada para os olhos alheios e outra que dialogava com o resto do mundo, este em que um fala e o outro responde, como é hábito das pessoas, o parafuso da lógica ajustado para causa e efeito, então ficava difícil acompanhar algo vivido apenas na intimidade da primeira mente, um mar inescrutável do qual o interlocutor só tomava conhecimento quando aquele Repito-periscópio emergia das profundezas e para o qual nada o preparara, o fato é que em sua vida dupla Jácoma prescindia das sequências habituais, isto é, que o outro a acompanhasse no raciocínio, em sua alma o diálogo era ferrenho mas o público só captava dele uma fumacinha controversa, quando e se.

                                                                        Não há problema,
cogitei entre braçadas amorosas no oceano turmalínico,  tantos têm mais de um mecanismo pensante e ocupam seu lugar até hoje, a Águia de Duas Cabeças, o Cérbero que oscila em três, a Hidra de Lerna em sete e assim por diante, todos solidamente instalados onde a cultura do Homem os fez sentar.

                                                                        Mas no caso em questão,
além da cabeça 1 raramente se dirigir a alguém senão a Jácoma, tornando a comunicação com os outros difícil, ela se engalfinhava frequentemente com a cabeça 2, tornando a comunicação com os outros impossível, pois o que uma desejava intensamente era refugado pela outra com não menos fervor, num universo paralelo cheio de fúria e contradições, resultando disso que só chegava aos interlocutores pouco ou nada, e ainda assim muito confuso.

                                                                        Tal fato acabou produzindo
uma cena intrigante: quando Jácoma 2 me disse “Eu te amo”, estaquei entre as turmalinosas ondas atento ao que se seguiria, e o que ouvi de Jácoma 1 foi “Repito, tenho sérias dúvidas sobre o esmalte de seus olhos e sequer aprecio seu cão”, emitiu ela pelo mesmo aparelho fonador (apesar de duas cabeças só dispunham de uma boca), a verdade é que quando podia (não era sempre e não era muito) Jácoma mostrava-se sincera e devassável, uma transparência que de tão brilhante obrigava o sol a proteger-se.

                                                                         O impasse definitivo,
incontornável, chegou à questão quando as duas cabeças não reconheceram unissonamente o milagre diante de si, tomando-o cada qual por algo diverso: “Deve ser bom”, extasiou-se Jácoma 2 diante do advento segundo ela sublime, mas Jácoma 1, após meditar por semanas num silêncio austero, concluiu: “É uma tampinha de coca-cola”, e o arremessou para longe com um chute.

                                                                       Uma lembrança recheada
de temperos sim,  e quando Jácoma emergia da névoa, o que se tornava cada vez mais raro, eu lhe indicava uma poltrona e a cobria de salamaleques, gostava que se sentisse confortável durante a remembrance, pois apesar das duas cabeças e as conclusões desgarradas brotando de sua cornucópia vocal, ela fora muito importante para mim, confesso, pena que como um sofá no lixo carecesse de estofo.

 

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Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. É romancista e contista e tem oito livros publicados. Com sua primeira obra, venceu o Prêmio Fernando Chinaglia para romance inédito; seu primeiro livro de contos, Sons e outros Frutos, recebeu o Prêmio para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional. Seu segundo livro de contos, Palavras são para comer (Oito e meio, 2017), é finalista do Prêmio Rio de Literatura.

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