o terminal, conto de aureliano coimbra

Começo contando pelo fim, pois foi o medo do fim que deu início a tudo. E foi inevitável. Não da forma que se anunciava, mas ninguém sobreviveu. A coisa começou a desandar quando um dos Queridos, era assim que se chamavam, eles nunca souberam os verdadeiros nomes uns dos outros, não se deram ao trabalho de perguntar, mesmo convivendo sob o mesmo teto por semanas, compartilhando intimidades bastante delicadas, até constrangedoras, escolheram ignorar esse detalhe, ou nem se deram conta, era um hábito daquela época, as pessoas se chamavam de queridas, inclusive entre desconhecidos, enfim, um dos Queridos lançou uma questão afiada demais para a situação em que o grupo se encontrava, uma pergunta que o tal Querido vinha se fazendo há dias, cada vez com mais frequência, mas sempre de forma reservada, até ser traído pela língua. O negócio escapuliu feito um disparo acidental e ricocheteou pelos quatro cantos do pequeno espaço até romper a harmonia pesada que sustentavam ali. Cada um foi torcendo o pescoço e girando a cabeça na medida em que se sentia atingido, numa sequência precisa e ritmada, como numa coreografia, ou num filme de terror. E os olhos que até então miravam o lado de fora voltaram-se para dentro. Um lugar desconfortável, apertado e frio, sem banheiro e sem assentos, sem água nem comida, sem privacidade. Eles estavam trancados na cabine do caixa eletrônico do banco Santander, em frente à praça da Matriz em Sertãozinho, no interior do Estado de São Paulo. Isso realmente aconteceu, é importante dizer, basta uma pesquisa no Google.

A notícia se espalhou de forma muito rasa, cheia de buracos e informações contraditórias, mas me capturou completamente. Cinco pessoas correram para se refugiar de uma chuva preta, seguida de uma fumaça densa e enferrujada que tomou a cidade por quase um mês, talvez por consequência das queimadas da cana-de-açúcar, coisa comum da região, mas não aquela fumaça nem aquela chuva, aquilo foi assustadoramente inédito, e eles ficaram trancados ali, por conta própria, durante duas semanas, ou mais ou menos isso, nada é muito preciso, e acabaram se matando, não por suicídio, mas por causa de uma briga, e tudo leva a crer que não lutavam para se alimentar da própria carne. Sem sobreviventes, é difícil saber o que de fato aconteceu dentro daquela cabine de autoatendimento. A imprensa da época se deu rapidamente por satisfeita com as imagens da carnificina, e ficou nisso, era o que viralizava. E eu fiquei preso com esses sujeitos, três homens e duas mulheres, os Queridos, no caixa eletrônico do Santander em Sertãozinho, assim que li sobre a tragédia, e aqui estou, tentando sair de lá.

A cidade existe até hoje, quase foi engolida por outra, Ribeirão Preto, mas ainda resiste, o banco também sobreviveu, assim como a praça e a igreja, a única coisa que não sobrou foi testemunha. Ninguém sabe, ninguém viu nem ouviu nada. O banco alega fake news. Uma viúva de Guaranésia entrou com processo contra o Santander cobrando indenização por ter perdido o marido, um andarilho, supostamente doente de Alzheimer, morto na cabine do caixa eletrônico do banco na mesma cidade e na mesma data da tragédia de Sertãozinho. Mas não consegui contato com essa senhora. Andei por ali em busca de pistas, parentes, amigos ou conhecidos dos Queridos, não encontrei nada. Até topar com uma pequena padaria, também em frente à praça, um lugar típico de cidade do interior, com fachada dos anos cinquenta e pessoas antigas do lado de dentro, a Panificadora & Confeitaria Real. Entrei e pedi um café, um radinho mal sintonizado tocava Amargurado, escolhi um lugar de onde dava para enxergar o banco, e foi aí que, um a um, os fantasmas vieram se sentar comigo.

A fumaça enferrujada, que também poderia ser poeira porque a terra da região tem essa cor, é muito comum ver a estrada tomada por uma nuvem avermelhada saindo dos tratores que trabalham na beira da pista, essa maldita fumaça enferrujada apagava a cidade, mas com o tempo foi se dissipando, e o Querido questionador pôde enxergar, sem muita nitidez, a fachada da panificadora. A essa altura, há dias confinado com um bando de desconhecidos na fria e apertada sala de embarque para o além, o menor ruído de respiração alheia atacava seus ouvidos de maneira torturante, os odores ardiam nos olhos, e as coisas começavam a se embaralhar dentro dele, que via o letreiro da Panificadora & Confeitaria Real aparecer e desaparecer, e as palavras se parecerem e não se parecerem com seus significados. Panificadora enunciava o óbvio, mas ganhava um novo sentido. Pânico. Ficar em pânico. Panificar. E os pensamentos foram atolando seu cérebro com associações sinistras desse tipo.

Onde estão os nós, regurgitou o Querido questionador, dividindo com o grupo, meio sem querer, o tormento com as palavras. O líder dos Queridos, era assim que se organizavam, com hierarquia, como se faz em qualquer grupo de pessoas, alguém se destaca e ganha a posição de comando, ou se autodetermina, simplesmente por saber se impor sobre os demais, mesmo sem nenhuma demonstração de competência, e quantas vezes o pior estúpido é quem melhor se impõe, ainda mais em circunstâncias extremas como essa, enfim, também poderia calhar de ser um verdadeiro iluminado, mas o tal líder dos Queridos não entendeu a pergunta logo de primeira, pensou ter escutado Onde estamos nós, e que se tratava de um sinal de esgotamento do Querido questionador, ou de um ataque de delírio, e decidiu ignorar, deixar passar, mas a ausência de resposta foi mais incômoda que a pergunta sem sentido, e o silêncio ficou insustentável, então uma Querida decidiu confirmar a mensagem, e a resposta veio de forma mais nítida, Nós isso, nós aquilo, Onde estão os nós.

A meio quarteirão do banco, da mesinha da panificadora, eu consigo vê-lo, dentro da cabine do caixa eletrônico, o Querido questionador, de olhos arregalados, espremido entre os demais, encarando cada um, repetindo a pergunta feito um mantra, já devia estar transcendendo, indo para outra dimensão, talvez no mesmo plano dos seus pensamentos, onde as palavras desencarnavam dos seus significados e encarnavam em outros, era o primeiro a tentar fugir de lá. Cismados, alguns sentem a morte mais presente do lado de dentro e decidem sair, o líder se agarra à porta com ajuda de mais um, o alarme dispara, eles arrancam as focinheiras, a cabine se torna um tanque de tubarões, excitados com a primeira gota de sangue, mergulhados no que mais temiam, começa a chuva preta, eu me levanto, vou até a calçada, cinzas caem do céu, tento agarrá-las, mas esfarelam nas minhas mãos. E aí, meu querido, escuto uma voz que vem da padaria, volto, ando até o balcão, Aceita outro café, pergunta um velho muito enrugado, reparo que tem os olhos esbranquiçados, parece cego, deve ser o dono do lugar, pago minha conta, agradeço, comento que viajo para São Paulo ainda essa noite, ele quer saber se vou de carro, digo que não, que meu ônibus parte do terminal às sete e quarenta e cinco, Pegue a poltrona da janela, é noite de lua cheia, eu saio apressado e penso, A lua está cheia de nós.


Aureliano Coimbra é fotógrafo, diretor de conteúdo audiovisual e pai de três filhos. Nasceu em Ribeirão Preto, estudou em Bauru e vive em São Paulo. É aluno do curso de Escrita de Ficção, ministrado por Noemi Jaffe na Escrevedeira.